UE muda discurso sobre questão agrícola de acordo com o público
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terça-feira, 21 de março de 2000
Por Vladimir Goitia 
São Paulo, 22 (AE) - O discurso de Pascal Lamy, comissário (ministro) de Comércio da União Européia para empresários e diplomatas brasileiros em São Paulo, foi diferente ao proferido para acadêmicos e alunos da Universidade de São Paulo e para jornalistas. Enquanto os empresários escutavam, durante um jantar na segunda-feira, que a União Européia começaria as discussões da futura agenda técnica com o Mercosul, marcada para os dias 6 e 7 de abril em Buenos Aires, com a melhor das intenções e disposição, Lamy dizia em palestras e entrevistas em São Paulo que os europeus não estão dispostos a incluir o tema agrícola nas negociações birregionais.
"Esse não é um bom augúrio para iniciar qualquer negociação", disse o embaixador José Alfredo Graça Lima, subsecrerário de Assuntos de Integração, Econômico e de Comércio Exterior do Itamaraty, que participou do jantar com Lamy. Ao ser informado sobre o discurso proferido a jornalistas e a acadêmicos da USP, o embaixador se declarou surpreso. O comissário europeu foi para Brasília tentar "seduzir" a diplomacia brasileira para dar seu apoio ao projeto europeu de acelerar uma nova reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), que fracassou em Seattle ao final do ano passado
quado se pretendia lançar a Rodada do Milênio.
"Sabemos que existe uma resistência européia no âmbito regional e bilateral, mas é preciso separar posições extremas das partes para poder trabalhar determinados assuntos", disse Graça Lima. O embaixador acrescentou que o Brasil e os países do Mercosul estão conscientes de que em uma rodada mais ampla de negociações - o multilateralismo incondicional proposto por Lamy nos últimos dias em São Paulo para a questão agrícola - não haverá uma diposição negociadora efetiva dos europeus sobre o assunto.
"A União Européia parece não ter abandonado a estratégia de manifestar a sua postura rígida de usar a questão agrícola como poder de barganha para obter maior abertura comercial em outras áreas por parte dos países do Mercosul", afirmou Graça Lima, um dos principais negociadores brasileiros na área comercial. "Mesmo que a União Européia proponha a exclusão do tema agrícola, a própria negociação bilateral vai encarregar-se de resolver esse dilema." Para Graça Lima, se o tema agrícola não for incluído nas negociações que podem conduzir a uma zona de livre comércio entre os dois blocos regionais, dificilmente haverá uma reciprocidade entre o Mercosul e União Européia.
"Se a União Européia tem interesse em conquistar mercados nesta região, seria de se esperar que eles viessem com uma visão de futuro e não ficassem parados à espera de abertura unilateral", disse o embaixador. "Não havendo melhores oportunidades para os nosso produtos de exportação, certamente as discussões vão atrasar." É bom lembrar que a União Européia vetou o nome do embaixador Celso Amorim, chefe da delegação brasileira em Genebra, para a presidência do Comitê de Agricultura da OMC por considerar que o Brasil é membro do Grupo de Cairns, do qual fezem parte os países favoráveis do livre comércio agrícola.


