Rio, 27 (AE) - Toda a pompa e circunstância desta Cimeira, assim como as boas intenções que figurarão na declaração conjunta a ser firmada amanhã (28) pelos chefes de Estado e de governo do Mercosul, Chile e União Européia, não escondem o fato de que os dois blocos têm agendas diferentes - e
em alguns pontos, opostas - para os próximos anos. Fortes interesses comerciais, políticos e estratégicos atraem o olhar europeu para o leste e o sul, enquanto os sul-americanos dividem suas atenções entre os Estados Unidos e a Europa.
Entre 2000 e 2006 a União Européia estará discutindo a incorporação de mais 12 países-membros do Leste Europeu - da Bulgária à Letônia. A UE negocia acordos de livre comércio - nos mais diversos estágios - com o Egito, a Tunísia, Marrocos, Israel, Palestina e Jordânia. Também há os acordos de preferências comerciais com os países da ásia mais afetados pela crise asiática e lançados como iniciativa para ajudá-los a recuperar-se da crise. Mesmo na América Latina, a União Européia tem outras prioridades.
Depois de seis bem-sucedidas rodadas de negociações, a UE e o México devem formalizar ainda este ano um acordo de livre comércio, com termos já ratificados pelo Parlamento Europeu e pelos parlamentos de vários países-membros da União. O México aceitou retirar da mesa de negociações a questão dos subsídios agrícolas, para acelerar a criação de uma área de livre comércio com os europeus.
O México é uma espécie de ponto de honra para os europeus. Sua participação no Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) levou a UE a perder muitos negócios com o México. Atualmente 75% do comércio exterior mexicano é feito com Estados Unidos e Canadá. É uma espécie de trauma, que impulsiona a aproximação européia à América Latina.
Chile - Altos funcionários europeus deram a entender também que as negociações com o Chile vão caminhar mais rapidamente do que com os quatro países-membros do Mercosul, embora os chilenos tenham embarcado junto com o bloco do cone sul, na chamada "passarela". O motivo é parecido: o Chile não tem produção agrícola do porte dos países-membros do Mercosul, e se declara satisfeito com o grau de acesso de suas frutas de exportação no mercado europeu.
Mesmo nas negociações entre o Mercosul e a União Européia, há uma polarização de interesses, com os europeus buscando a liberação do mercado do cone sul para seus produtos industriais e sobretudo serviços, e os sul-americanos tentando derrubar as barreiras européias para seus produtos agrícolas.
O ex-secretário de Estado de Portugal para Assuntos Europeus Vitor Martins é categórico: "As prioridades 1, 2 e 3 da União Européia são os setores de serviços, serviços e serviços." Falando a empresários paulistas, no final da semana, em São Paulo, Martins acrescentou que "a posição européia está fechada nessa frente e 90% de sua atenção está e estará voltada para essas áreas na Rodada do Milênio".
De acordo com ele, a meta dos países europeus é conseguir maior abertura nos setores de telecomunicações, serviços financeiros e saneamento básico (água potável e esgoto)
entre outros. Depois dessas três prioridades, acrescentou Martins, vem a área de proteção aos investimentos.
O Mercosul também tem outras prioridades, antes mesmo de fechar posição sobre a área de Livre Comércio das Américas (Alca), prevista para entrar em vigor em 2005, e a zona de livre comércio com a UE. "O grande desafio do Mercosul é construir um mercado comum que puna o protecionismo, coisa que a UE não fez"
diz o embaixador Luiz Felipe de Seixas Corrêa, secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores.
Sobre a questão agrícola, que aflige os países latino-americamos, principalmente os do Mercosul, Vitor Martins, que também fez parte da Comissão Européia, afirmou que a Europa terá, durante a Rodada do Milênio da Organização Mundial do Comércio, "uma posição extremamente defensiva".
As declarações de Martins apenas reforçam o que expressa o acordo de Luxemburgo, pelo qual os 15 países-membros concederam o mandato negociador à Comissão Européia: "A UE aceita liberalizar, de forma gradativa e recíproca, todo o comércio de bens e serviços, levando em conta a sensibilidade de determinados setores e de acordo com as normas da OMC." É em razão dessa "sensibilidade" - de ambos os lados - que a declaração conjunta não deve mencionar os termos "área" ou "zona" de livre comércio: pelas regras da OMC, essas denominações só podem ser empregadas em caso de uma relação "substancialmente abrangente" de produtos e serviços.

mockup