Paris, 31 (AE) - As advertências que se multiplicaram no fim de semana na França, Alemanha, Holanda e Bélgica contra a participação da extrema direita austríaca num governo de coalizão com os conservadores não parecem ter sido suficientes para desestimular um acordo, que pode ser concluído nos próximos dias.
A União Européia (UE), que parecia impotente para impor seu ponto de vista diante de um país disposto a rejeitar toda ingerência externa, decidiu aumentar sua pressão, ameaçando pôr a áustria em quarentena político-diplomática, caso as negociações com o FPO, o partido de Joerg Haider, tenham êxito.
A importância dessa decisão está sendo destacada em diversas capitais. O presidente francês, Jacques Chirac, foi o primeiro a saudar a coerência da decisão européia. Trata-se da demonstração de que a UE não constitui apenas um mercado único, pois pode exercer uma forma de ingerência democrática para corrigir eventuais derivas políticas de um de seus membros.
Hoje, o embaixador austríaco na França, Franz Ceska, revelou que Haider não é um neonazista, mas sim um homem ambicioso, demagogo, xenófobo, sem papas na língua. E acrescentou: "Sua única ideologia é ele próprio." A seu ver, o isolamento político da áustria só poderá agravar o problema.
Críticas de Haider a Chirac e à Bélgica deflagraram a reação européia. Um dos únicos apoios manifestados a Haider foi o de Jean Marie Le Pen, o presidente da Frente Nacional. O destempero verbal de Haider (em relação à Bélgica e a Chirac) pode ter correspondido a um suicídio político - pelo menos é o que acreditam alguns observadores políticos europeus convencidos de que ele não mais terá condições de ser aceito pela comunidade européia.
Para Haider, entretanto, não há razão para dobrar os joelhos diante de Chirac, mesmo retirando as palavras que chocaram os parceiros europeus. A posição de Chirac é consensual na França. O chanceler socialista Hubert Vedrine tem um discurso bem afinado com o do presidente gaullista. Ele também considera que um governo de coalizão com a extrema direita austríaca merece ser posto sob alta vigilância pelos demais países europeus.
Já o dirigente verde franco-alemão, Daniel Cohn Bendit, considera que Haider não é Le Pen, preferindo compará-lo a Gianfranco Fini, o líder neofascista italiano que promoveu uma guinada para o centro em seu partido, o Aliança Nacional-Movimento Social Italiano (AN-MSI).
Os austríacos não se conformam com esse "excesso de zelo" de seus parceiros europeus, lembrando que em 1994 a Itália formou um governo do qual Fini participou, sem suscitar a mesma reação e desaprovação. Essa gesticulação européia tem contribuído para aguçar o nacionalismo dos austríacos - que estão se sentindo os "mal-amados" da UE.
Afinal, 54% da população apóia essa coalizão e o partido de Haider tem o apoio de 33 % da opinião pública, relegando os social- democratas a uma posição secundária.

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