Agência EstadoTensãoSem-terra destróem cerca da fazenda Santa Rita: estopim da crise, que para a UDR, pode ampliar o conflito

O presidente da União Democrática Ruralista (UDR) Roosevelt Roque dos Santos disse que pretende alertar o governo, em um manifesto político que divulga hoje, sobre a ‘‘guerra civil’’ que poderá ocorrer na região do Pontal do Paranapanema, caso continuem ocorrendo ocupações de terra. ‘‘Do estado de baderna que vivemos hoje à guerra civil, a distância é muito curta’’, afirmou o presidente da entidade, que esteve ontem na fazenda Santa Rita, onde houve confronto entre sem-terra, funcionários da propriedade, policiais militares. Cerca de 300 sem-terra enfrentaram ontem pela manhã 15 funcionários armados da Fazenda Santa Rita, em Mirante, e destruíram 2 mil metros de cerca da propriedade. Os empregados da fazenda reagiram, disparando cerca de 200 tiros, mas Ninguém foi ferido.
O lançamento do manifesto foi decidido durante reunião de proprietários rurais realizada na última quinta-feira, em Presidente Prudente (558 km a oeste de São Paulo). Santos disse que pretende abordar também no manifesto o descaso dos governos estaduais e federal em relação à ação desorganizada do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST).
‘‘Não venham depois os senhores Fernando Henrique Cardoso e Mário Covas responsabilizarem os fazendeiros por alguma eventual morte que acontecer dentro das fazendas invadidas. Nós temos o direito de defesa assegurado na Constituição’’, afirmou.
O líder do MST José Rainha Jr. disse que a Constituição não garante aos fazendeiros de se defenderem ‘‘por meio de milícias armadas e grupos paramilitares’’. ‘‘Eles estão montando esses grupos com forte arsenal. Isso a Constituição proíbe’’, disse.
Duas horas após o início da invasão da Fazenda Santa Rita, soldados da Polícia Militar de Teodoro Sampaio decidiram interferir. Até então eles apenas assistiam ao conflito entre os sem-terra e os seguranças da fazenda da estrada que liga Teodoro Sampaio a Sandovalina. Os PMs capturaram quatro homens - um deles, Vítor Santana, policial militar de Mato Grosso do Sul -, apreenderam 16 armas e dois carros.
A ação começou por volta das 7 horas, quando homens, mulheres e crianças, moradores dos barracos do acampamento em frente à Fazenda Santa Rita, se dirigiram para a estrada com foices, enxadas e facões. Gritando palavras de ordem, os trabalhadores chegaram à porteira da fazenda e começaram a derrubar a cerca. Os seguranças da propriedade, apenas quatro homens armados, esperaram 15 minutos para começar a atirar. Os primeiros tiros foram para o alto. À medida que os integrantes do MST avançavam sobre a cerca, o número de seguranças triplicou.
Quando a liderança do MST deu ordem para destruir um barracão de madeira armado dentro da área da fazenda os seguranças começaram a atirar contra o grupo. Os trabalhadores então recuaram para o acampamento e cerca de 10 soldados da polícia pediram trégua aos seguranças, que continuavam a atirar. A PM entrou na propriedade e pelo menos três funcionários da fazenda abriram fogo contra os policiais.
Os soldados começaram perseguição na propriedade e conseguiram deter quatro homens, levados para a delegacia de Teodoro Sampaio. ‘‘Até eles atirarem na nossa direção e na do povo estávamos impedidos de tomar qualquer atitude, porque eles estavam agindo dentro da lei, protegendo a propriedade’’, disse o capitão Renato Riuquiti, que comandou a operação. ‘‘Ficamos na observação até a coisa esquentar’’, afirmou. Segundo ele, algumas das armas apreendidas estavam com a numeração alterada. ‘‘Isso indica que esses seguranças agiram de má-fé.’’
A Fazenda Santa Rita, da família Negrão, está desde julho sob ação de um interdito proibitório, recurso que impõe uma multa sobre quem invadir a propriedade. A área, avaliada pelo MST em 13 mil hectares, já foi invadida duas vezes pelo movimento.

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