UDR acusa governos de se aliarem aos sem-terra
Nelson Cilo,
Especial para a Folha

Fernando Martinez/Oeste NotíciasFarpasRoosevelt Santos: ‘‘O conluio envolve muitos setores’’PRESIDENTE PRUDENTE - Os frequentes conflitos fundiários transformaram o Pontal do Paranapanema (extremo oeste de Sao Paulo) em um verdadeiro barril de pólvora. O mais recente tiroteio na Fazenda Sao Domingos, há uma semana, deixou um saldo de dois sem-terra gravemente feridos e de quatro pessoas presas, acusadas de tentativa de homicídio: Manoel Fernandes Neto, filho do pecuarista Osvaldo Fernandes Paes, e de mais quatro funcionários da fazenda. O episódio serviu de pretexto para reacender a velha polêmica: de quem é a culpa?
O presidente da Uniao Democrática Ruralista (UDR) na regiao do Pontal, Roosevelt Roque dos Santos, acusa os governos estadual e federal, ‘‘aliados aos sem-terra na baderna que se estabeleceu em quase todo o País’’.
Roosevelt ataca setores que, segundo ele, dao retaguarda aos sem-terra. Nao poupa nem o governador Mário Covas (SP) nem o presidente Fernando Henrique Cardoso. Tampouco o cardeal arcebispo de Sao Paulo, dom Paulo Evaristo Arns ou a Secretaria da Justiça e Cidadania do Estado. Nao escapa quase ninguém da fúria do presidente da UDR. Em entrevista à Folha de Londrina, ele fala do suposto envolvimento do líder do MST, José Rainha Júnior, no duplo assassinato de um policial e de um fazendeiro, no dia 5 de junho de 1989, durante uma invasao no município de Pedro Canário (ES). E admite: ‘‘Estamos diante de um beco sem saída’’.
Folha -O que o senhor acha do José Rainha Júnior (líder do MST)?
Roosevelt Roque dos Santos - Só ficamos de frente uma vez durante o debate num programa de TV. É um tipo acostumado a desrespeitar a ordem e a lei. Tanto é que está foragido da Justiça. Nem precisaria falar muito dele, só perguntaria do que ele vive? Trabalha em algum lugar? Recebe salários de onde? Ele arregimenta seguidores para ensinar táticas de guerrilha e de terrorismo.
A UDR mantém um amplo arquivo sobre as atividades do MST...
É verdade. Sabemos de tudo. O MST obtém ajuda até do exterior. Temos documentos que confirmam propostas de intercâmbio e de auxílio financeiro, inclusive da França. O Procera, programa vinculado ao Incra (Instituto Nacional de Colonizaçao e Reforma Agrária), também destina recursos aos sem-terra. Eles recebem dinheiro de todos os lados. O conluio envolve muitos setores, inclusive o Itesp (Instituto de Terras do Estado de Sao Paulo), o governador Mário Covas a Secretaria da Justiça, o cardeal arcebispo de Sao Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, etc.
Como o sr.vê a reforma agrária?
Nao tenho nada contra, desde que os beneficiários trabalhem na terra improdutiva e nao façam movimentos políticos e demagógicos, como hoje acontece. Poderiam, se quisessem soluçoes tranquilas, promover passeatas e movimentos pacíficos. Isso é democracia. Nao querem entender que a negociaçao pode levar ao acordo. Que a Justiça - e nao eles - é que julga se a terra é produtiva ou improdutiva. Filosoficamente, sou favorável à reforma agrária. Mas uma coisa é o sentido social. Outra, bem diferente, sao os meios que os sem-terra utilizam. Eles colocam fogo, matam, destroem e depredam tudo. Posso garantir que os proprietários nao têm culpa do desemprego e das desigualdades sociais. Já o MST perde a legitimidade quando recorre ao crime.
O MST acusa a UDR de nao dialogar...
Nao dialogamos com criminosos. O José Rainha responde ao processo número 021/91 pelo duplo assassinato do policial Sergio Narciso da Silva e do fazendeiro José Machado Neto. Ele é acusado de organizar e participar do grupo que invadiu a Fazenda Ipuera, no município de Pedro Canário, no Espírito Santo. É lá que ocorreram esses crimes. O juiz entendeu que há indícios de envolvimento do Rainha, que vai a julgamento no dia 19 de março. No caso das mortes de dois rapazes no Paraná, há alguns anos, nao me lembro se o Rainha estava envolvido. Só falaria se tivesse certeza.
Como o senhor encara os acordos para assentamentos definidos pelo Instituto de Terras do Estado de Sao Paulo (Itesp)?
Muitos fazendeiros concordam e assinam qualquer coisa na hora porque já tiveram grandes prejuízos no passado. Mas nem sempre vêem o dinheiro. Dou um exemplo: os integrantes do MST invadiram as terras de Dionísia Leal (proprietária da Fazenda Estrela D’Alva, em Mirante do Paranapanema/SP), destruíram tratores, mataram animais e queimaram pastagens. Dionísia assinou um acordo nos tempos do Luiz Antônio Fleury (ex-governador de Sao Paulo), mas até agora nao viu nenhum tostao.
A UDR contrata pistoleiros para atirar nos sem-terra?
O problema é que o MST se coloca acima da lei, mas ninguém toma providências. Portanto, somos obrigados a nos proteger. Defendemos o direito à propriedade. Ou você ficaria indiferente se invadissem sua casa? É claro que caberia às autoridades prevenir e policiar. Só que até o governo estadual é conivente. Os sem-terra avisam pela mídia, principalmente pela TV, que irao invadir. E invadem numa boa. O País assiste passivamente e o governo de Fernando Henrique Cardoso nao reage. Agora, ocupam fazendas. Um dia, ocuparao as cidades. Rapidamente, procuram ampliar os limites da violência.
Que sugestao o senhor daria para resolver o impasse?
É complicado. Até o governo, que deveria entrar nos trilhos, vem a reboque do crime, descumpre a lei e financia tratores para invasoes. O ideal é que se crie um conselho para cadastrar aqueles que realmente fossem cultivar terras improdutivas. É preciso adotar um programa racional e inteligente. Mas, hoje, infelizmente, estamos num beco sem saída.

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