TV mostra autor de disparo contra PM
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 25 de junho de 1997
Agência Estado Belo Horizonte e Campinas 
Maurilo Clareto/Agência Estado
(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)
IntegridadeSoldados do Exército montam guarda no pátio do Palácio da Liberdade O comando da PM de Minas informou ontem ter identificado, com base em gravações de emissoras de televisão, o autor do disparo que atingiu na cabeça o cabo Valério Santos Oliveira, de 35 anos, na tarde de terça-feira. O tiro foi dado durante confronto entre milhares de policiais civis e militares revoltados com os baixos salários e a tropa de proteção às sedes da PM (Copom) e do governo mineiro, na Praça da Liberdade, zona sul de Belo Horizonte. Os manifestantes acusaram o coronel Edgar Eleutério Cardoso, 43 anos, indicado, no sábado, para o posto de comandante de policiamento da capital, como agressor de Valério.
Essa informação é inverídica e, pela fita mostrada pela TV Globo, sabemos exatamente quem foi o autor do disparo: um policial militar de Belo Horizonte que estava à paisana, de camisa azul, listrada, no meio dos manifestantes, disse, no início da tarde, o assessor de imprensa da PM, major Rômulo Berbert. Esse elemento encontra-se foragido, mas está sendo caçado, acrescentou. Embora a corporação não tenha revelado o nome do policial para não atrapalhar as investigações, de acordo com Berbert, um oficial que pediu para não se identificar disse que trata-se do soldado Edson Campos Gomes, lotado na 3ª Companhia do Batalhão de Choque da capital, mesma unidade de Valério.
O oficial garantiu, porém, que mesmo que as imagens não tenham deixado margens para dúvidas - na fita, o homem à paisana saca e dispara uma revólver niquelado em direção ao cabo Valério, que cai, e foge segundo depois -, a PM, em parceria com a Polícia Civil, pretende conduzir as investigações com toda a seriedade e até o fim. Vamos formar o corpo de provas para sustentar que o tiro saiu da arma do policial em roupas de civil, entre os manifestantes, e não da arma do coronel Eleutério, disse.
O delegado-chefe da Divisão de Crimes contra a Vida de Minas Gerais, Otto Teixeira, disse ontem que, apesar das evidências apresentadas por emissoras de TV, o inquérito sobre o crime só está no início e não permite qualquer conclusão. Vários fatos foram levantados, mas é muito cedo e precipitado qualquer decisão no sentido da autoria desse fato, afirmou. Anteontem e ontem, peritos da Polícia Civil estiveram na prédio do Comando de Operações da PM, onde Valério foi baleado, e colheram amostras de pólvora e outros indícios sobre os cinco disparos ocorridos durante a confusão.
Três testemunhas cujos depoimentos integram o inquérito da Polícia Civil, entre elas o detetive Jabis Guilhermino e o cabo Luís Fernando da Silva, garantiram que o tiro foi dado pelo coronel Eleutério. O coronel negou a versão, garantindo que estava atrás da vítima e tinha os braços cruzados com os de outros militares, formando um cordão de isolamento na porta do Comando-Geral da Polícia Miliar (Copom). Eleutério entregou sua arma à Justiça.
No momento em que foi atingido na cabeça, Valério pedia calma aos seus colegas, de cima da escada que dá acesso ao Copom. Ao seu lado, estava o cabo Júlio César Gomes, principal líder do movimento de protestos dos militares mineiros contra os baixos salários. Gomes ainda teve o rosto atingido por respingos de sangue.
Análise - Peritos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) vão analisar as imagens gravadas por uma equipe de televisão durante o confronto entre policiais militares anteontem em Belo Horizonte. O trabalho tentará identificar de onde partiu o tiro que acertou a cabeça do cabo Valério dos Santos Oliveira, de 36 anos. Ele foi atingido durante uma manifestação dos policiais militares e civis, que há duas semanas reivindicam melhores salários.
A assessoria de imprensa da Unicamp informou que o pedido para análise da fita foi feito pelo perito Jorge Souza Lima, do Instituto Médico Legal de Belo Horizonte, ao diretor do departamento de Medicina Legal da universidade, Fortunato Badan Palhares. Lima desembarcou num avião do Governo de Minas Gerais por volta das 15h30 no aeroporto de Viracopos, onde foi recebido por Palhares.
A perícia da fita faz parte do inquérito aberto pela polícia de Minas Gerais para tentar identificar o autor do disparo que atingiu o cabo. Com ajuda de equipamentos sofisticados, os peritos da Unicamp já conseguiram esclarecer outros casos semelhantes. Entre eles, a identificação do ex-policial militar Otavio Lourenço Gambra, o Rambo, como autor do tiro que matou o escriturário Mario José Josino, durante uma blitz na favela Naval, em Diadema, no dia 07 de março.


