Brasília, 13 (AE) - O ministro da Agricultura, Francisco Turra, cobrou hoje da União Européia um sinal claro de que os países que oferecerem produtos não-transgênicos poderão obter vantagens no mercado europeu. "Se eles efetuarem uma compra futura de toda a safra de soja do ano que vem, por exemplo, o Brasil garante que não produzirá sequer um grão transgênico", disse Turra. Para o ministro, sem este sinal claro de que o País poderá ter ganhos ao optar por manter a produção isenta de transgênicos, não há como convencer o produtor brasileiro a deixar de lado a tecnologia e não investir em alimentos geneticamente modificados.
Turra disse que em encontro na semana passada com o ministro da Agricultura da Inglaterra, Ellyot Morley, falou desta dificuldade. "É muito difícil falar para o produtor deixar de lado os transgênicos, quando os argentinos dizem que têm até 20% de redução de custo e exportam para vocês com preço igual, sem nenhuma diferença", relatou Turra. Na avaliação do ministro, seria muito complicado fazer uma campanha para que o produtor brasileiro se afaste dos transgênicos apenas com base nos interesses dos europeus, onde apesar da resistência dos consumidores continuam sendo feito testes e entrando produtos geneticamente modificados.
"Eles colocam o produto não transgênico como divino, abençoado, mas não dão nenhum sinal concreto de compra no mercado futuro para garantir a alimentação com grãos tradicionais", reiterou. Turra observou que caso a União Européia sinalizasse com a compra de 30 milhões de toneladas de soja ou 60 milhões nas próximas safras, o produtor brasileiro poderia ser estimulado com um diferencial de preço, "que deveria ser de 20%, no mínimo". Ainda de acordo com Turra, o ministro da Inglaterra disse que iria propor a alguns empresários que avancem numa proposta neste sentido aos produtores brasileiros, já que em audiências sempre reclamam das dificuldades de garantir um local no mundo onde não se produza transgênicos.
Reunião -Os ministros de Agricultura do Mercosul deverão se reunir no dia 6 de agosto em Buenos Aires para tratar das oportunidades de mercado do bloco para produtos não transgênicos
informou Turra. Apesar de a Argentina já estar produzindo cerca de 70% de soja transgênica, o ministro brasileiro avalia que é preciso analisar o assunto face ao grande debate mundial sobre transgênicos.
"Não vamos falar de aspectos relacionados à saúde ou meio ambiente, mas sobre oportunidades de mercado para o Mercosul", explicou. Depois da visita à Inglaterra, na semana passada, Turra mostrou-se intrigado com a campanha para que o Brasil não adote produtos transgênicos. "Disse a eles que achava essa polêmica estranha, já que lá na Europa eles consomem transgênicos, autorizam experimentos e têm laboratórios até para separar produtos geneticamente alterados que já foram processados". Para o ministro, a discussão pode esconder um desejo de fazer com que o Brasil continue no atraso, não investindo na biotecnologia que será o carro-chefe da agricultura no próximo milênio.
Monsanto - O plantio da soja transgênica resistente ao herbicida roundup ready continuará suspenso no País pelo menos até o retorno das atividades do poder judiciário em agosto, o que poderá atrasar os planos da Monsanto do Brasil de comercializar as sementes geneticamente modificadas a partir de setembro. O juiz presidente do Tribunal Regional Federal (TRF) - 1ª Região, Plauto Afonso da Silva Ribeiro, indeferiu o pedido da Monsanto do Brasil para a suspensão da liminar concedida pelo juiz federal Antônio Souza Prudente, da 6ª Vara de Brasília, que impede o plantio da soja transgênica até que seja realizado estudo prévio de impacto ambiental.
A Monsanto entrou com agravo regimental no TRF, no dia 7, com pedido liminar para a suspensão dos efeitos da decisão do juiz federal de Brasília. Na sexta-feira, dia 9, o juiz presidente do TRF negou a liminar, ressalvando, no entanto, que face à relevância do assunto, todos os procedimentos deveriam ser tomados para que o tribunal possa apreciar e julgar a ação tão logo termine o recesso do poder judiciário. A ação que suspendeu temporariamente o plantio da soja transgênica é movida pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC) e apoiada pelo Ministério Público e pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama).
A Advocacia Geral da União também pretende recorrer da decisão do juiz Antônio Prudente, mas deverá aguardar o reinício dos trabalhos do judiciário. Enquanto isso, todas as decisões referentes à soja transgênica estão suspensas.

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