Estado de emergência na Bolívia e no Chile, distúrbios no Equador, destituição do Congresso no Peru, uma crise permanente na Venezuela. A América Latina parece estar mergulhando em turbulências, principalmente na últimas semanas, com crises eclodindo quase simultaneamente.

Protestos têm sido constantes em Santiago, capital chilena, nas últimas semanas
Protestos têm sido constantes em Santiago, capital chilena, nas últimas semanas | Foto: Pedro Ugarte/AFP

Para a cientista política Renata Peixoto de Oliveira, professora de Relações Internacionais da Unila (Universidade Federal da Integração Latino-Americana), em Foz do Iguaçu (Oeste), o cenário pode estar sendo influenciado por fatores em comum, como o que vem sendo chamado de “crise da democracia” — um fenômeno mundial.

Autora do livro “Sem Revoluções: os dilemas das democracias neoliberais andinas” (Editora Appriss), a especialista ressalta, contudo, que cada uma dessas crises tem causas específicas, ligadas a contextos como os modelos econômicos que vêm se alternando na região nas últimas décadas.

Oliveira explicou algumas destas particularidades em entrevista à Folha de Londrina na última quinta-feira (24).

É possível falar em um cenário amplo de instabilidade na América Latina ou trata-se de situações particulares que estão eclodindo simultaneamente?

É interessante perceber essas duas possibilidades de interpretação. Ao mesmo tempo em que pode-se sinalizar, em toda a região — e até mesmo em outros continentes —, a existência de um período de maior instabilidade política e descontentamento com as instituições e partidos tradicionais; o surgimento de novos atores e forças políticas; e a crise democrática no período atual — algo que tem sido muito debatido —, a gente tem de perceber que cada uma dessas crises nacionais respondem a uma lógica. É preciso olhar a história política desses países, a dinâmica da sociedade, o momento político e até mesmo o modelo econômico.

Essas crises poderiam estar ligadas a um contexto maior — como a onda internacional de protestos de rua?

As manifestações de rua são uma circunstância da atual conjuntura, mas elas não ocorrem de maneira circunstancial. A meu ver, é necessário olhar para as histórias políticas. No caso do Chile, as manifestações que estão ocorrendo não são fruto de uma circunstância, mas devem ser entendidas a partir do fato de que há ali um modelo econômico — o modelo neoliberal, de mercado, que propõe o Estado mínimo, a privatização dos serviços — que foi implementado durante ditadura militar de Augusto Pinochet na década de 1970. E que permanece até hoje, mesmo com a redemocratização do país. Quando os chilenos saem às ruas agora, estão levantando demandas e questões que estão sufocadas já há bastante tempo.

Por isso as concessões do governo não foram suficientes para tirar as pessoas das ruas?

Exatamente. Concessões são remédios. É algo paliativo, algo ainda muito pequeno se consideradas as demandas, que são estruturais. O que significa aumentar o salário mínimo e as pensões se nós temos um sistema de pensões privatizado e capitalizado, que fica nas mãos de poucas empresas? Se não há acesso gratuito a saúde e educação? As universidades chilenas, mesmo quando públicas, são pagas. Isso onera principalmente a classe trabalhadora, que tem muita dificuldade para garantir moradia, alimentação, saúde, transporte e educação para si e para seus filhos.

Há paralelos com o que ocorreu no Equador, onde manifestações foram potencializadas por medidas econômicas do governo?

As manifestações que foram às ruas das principais cidades do Chile e principalmente da capital do Equador têm endereço certo: o governo e as políticas econômicas vinculadas ao modelo neoliberal. O que é interessante destacar é que, enquanto o Chile se mantém na via neoliberal há quatro décadas, temos o inverso no caso do Equador, que teve uma experiência nacional-desenvolvimentista na década passada. Com a presidência de Lenín Moreno, houve um retorno a um modelo neoliberal O curioso é que Moreno era aliado político do ex-presidente Rafael Correa. Então, quando a população o elege, dá um sinal de que quer uma continuidade do modelo político e econômico que estava em voga há cerca de uma década. Mas, quando ele assume, rompe com o ex-presidente e adota um projeto econômico contrário. Aí já se pode entender algumas das raízes desta insatisfação popular que tomou conta do Equador nessas últimas semanas.

Houve crises no Peru e, agora, na Bolívia. Estas têm naturezas muito diferentes?

Há características diferenciadas entre a crise boliviana e a crise peruana. No caso do Peru, é preciso levar em conta a herança política do fujimorismo para o país. Existe uma briga entre Executivo e Legislativo que tem muito a ver com um jogo de forças políticas que a gente só consegue compreender se realizar um mapa de quais são os atores e forças ali representadas. Há um embate entre a Presidência da República e um Congresso que é dominado por forças vinculadas a Alberto Fujimori. E um rastro de escândalos políticos que afetaram toda a classe política peruana nos últimos tempos. Então é um caso muito particular.

O caso boliviano tem outra conotação. Ali, temos um governo de esquerda, progressista, que busca seu quarto mandato. É um projeto político que está [no poder] já há um tempo considerável, mas que conta com apoio da população. Passou por um período complicado quanto ao tema da reeleição — até quando o mesmo presidente pode ficar se reelegendo indefinidamente, mesmo que conte com apoio massivo, com legitimidade por parte dos seus cidadãos? Isso fortaleceu a oposição ao Evo Morales na Bolívia. E essas eleições são muito significativas, porque sinalizam ou a continuidade desse projeto nacional-desenvolvimentista, não só na região andina, mas em toda a América do Sul, ou um giro à direita com a ascensão do candidato oponente, que é o ex-presidente Carlos Mesa. Este embate quanto à apuração dos votos gerou especulações, descontentamentos, e acirrou os ânimos entre a situação, a oposição e os grupos que apoiam a oposição e a saída de cena de Morales. Agora, as manifestações na Bolívia têm um caráter bem mais localizado. O descontentamento com o processo eleitoral está muito localizado geograficamente em regiões que sempre se mostraram um reduto de forças opositoras ao governo. Isso é muito diferente do que acontece no Chile, onde temos manifestações contrárias ao governo em todo o território.

A senhora vê risco de uma ruptura democrática atingir a região de uma forma mais ou menos homogênea, como se viu no passado?

A gente está em outro momento. Existem outras formas de desestabilizar a política e a democracia. É interessante trazer o termo “ruptura democrática” para nosso contexto regional porque, na realidade, desde o impeachment de Fernando Lugo, em 2012, no Paraguai — passando pelos questionamento acerca do impeachment da presidenta Dilma Rousseff no Brasil, em 2016; a crise na Argentina, com o governo de direita do Mauricio Macri; e, atualmente, as crises no Equador, no Chile e Peru —, já está em curso um processo de desgaste da política e de rupturas democráticas. Há alguns anos estamos caminhando, não apenas na América Latina, mas também em outras partes do mundo, para este retrocesso democrático. A própria eleição do Donald Trump nos Estados Unidos é um reflexo desta ruptura democrática.

O que significa para o Brasil estar cercado por este cenário de crise? Olhado de fora, o País faz parte dele?

Sim. O Brasil faz parte e é importante que se veja parte da América Latina — algo que não é comum para nós, brasileiros e brasileiras. Olhamos mais para os Estados Unidos e para a Europa do que nos percebemos como parte de uma região que passou pelos mesmos processos históricos de pós-colonização, de formação dos nossos Estados pós-independência, de economias dependentes, de sociedades que amargam uma exclusão social e dívidas sociais históricas — principalmente com as mulheres, com os indígenas e com a população afrodescendente. Seguramente, como nós também temos nossas limitações e problemas, não podemos nos ver como um oásis. Nosso mapa político e econômico é bastante incerto para nos sentirmos seguros e livres de qualquer reação ou convulsão social nos próximos meses ou anos. A gente também precisa perceber que, ao pertencer a uma região, tem aliados e relações comerciais com estes países. Nossas economias estão interligadas. Fazemos parte dos mesmos blocos. Quando há crise, sabemos que, muitas vezes, isso leva um contingente maior de pessoas a migrar de um país a outro buscando melhores oportunidades ou fugir de perseguições políticas. Então, esses conflitos, sim, nos interessam e nos afetam enquanto região. E o Brasil, que sempre pretendeu, pelo menos até alguns anos atrás, ser um líder regional, precisa olhar com muita atenção para o que está acontecendo à nossa volta.

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