Tumulto na missa de um ano da morte do traficante Uê
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quinta-feira, 11 de setembro de 2003
Roberta Pennafort<br> Agência Estado 
Rio - Escolhida pelas famílias de três traficantes mortos na rebelião de 11 de setembro do ano passado no presídio Bangu 1, no Rio, para a celebração de uma missa fúnebre, a Igreja da Candelária, uma das mais importantes do Rio, virou ontem um campo de batalha. Descontrolados e aos gritos, parentes e amigos dos criminosos, que não queriam ser filmados nem fotografados, agrediram jornalistas e derrubaram um banco do templo.
A missa foi encomendada para lembrar o primeiro aniversário de morte de Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê, e de seus cunhados Carlos Alberto da Costa, o Robertinho do Adeus, e Wanderlei Soares, o Orelha. Eles eram chefes da facção criminosa Amigos dos Amigos (ADA) e foram mortos por traficantes do Comando Vermelho (CV) durante o motim liderado pelo traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, que durou mais de 23 horas e teve como quarta vítima Elpídio Rodrigues Sabino, o Robô.
A cerimônia estava marcada para as 11 horas. Pouco antes, cerca de 30 pessoas atacaram repórteres, fotógrafos e cinegrafistas, gritando que não queriam que suas imagens fossem registradas. Um equipamento da TV Globo chegou a ser quebrado. Em seguida, eles deixaram a Candelária correndo. O padre Elia Volpi começou a celebração com a igreja vazia, mas o grupo acabou voltando e assistiu à missa, tentando esconder o rosto. A cerimônia foi reduzida pelo religioso, que queria evitar mais tumulto.
Alan da Silva Soares, de 23 anos, que escondia o rosto com uma camiseta com os dizeres ''Saudade eterna do nosso mano Uê'' e ''Serás para sempre o nosso general'', foi detido na saída da Candelária. Autuado por apologia ao tráfico de drogas, crime afiançável, ele foi liberado pouco depois. A Arquidiocese do Rio considerou a confusão um desrespeito com a igreja, mas ressaltou que a missa fúnebre é um direito de todas as famílias. O padre Elia Volpi lembrou que a religião católica não julga ninguém.
Muito nervosa, a mãe de Uê, Georgina Pinto de Medeiros, chorou e disse que o assassinato dele foi uma injustiça. Dentro da igreja, disse: ''Tem que matar o Márcio (dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP do Morro do Alemão) e o Fernandinho Beira-Mar (Luiz Fernando da Costa).'' Ela se referia a traficantes inimigos do filho.
O tumulto na igreja foi o único incidente relacionado à rebelião do ano passado registrado pela polícia. A Secretaria de Segurança Pública havia destacado quatro mil policiais civis e militares para garantir a segurança da população.


