Tropas em terra já não são descartadas pela Otan Do correspondente REALI JÚNIOR
Paris, 01 (AE) - A hipótese de uma ação terrestre dos países da OTAN , mesmo não sendo admitida publicamente, já não é descartada como no ínicio, mas não se sabe que tipo de ação terrestre seria mais conveniente, se para destruir inteiramente o sistema repressivo do presidente Slobodan Milosevic ou uma iniciativa terrestre bem mais limitada destinada a garantir um corredor humanitário e instituir uma zona desmilitarizada para proteger os milhares de refugiados.
No primeiro caso, os mais recentes estudos feitos pela própria OTAN indicam que seriam necessários pelo menos 200 mil homens. Segundo uma fonte militar francesa, se a mobilização fosse inferior a 150 mil soldados, o melhor seria não fazer nada. Nessa hipótese, os aliados teriam necessidade entre seis e oito semanas para preparar uma expedição a partir do que já existe na Macedônia e no Adriático, revela uma análise feita pelo especialista em assuntos militares francês, Jacques Isnard.
No caso de um dispositivo bem mais restrito, apenas para garantir o corredor humanitário, ele seria constituído por um número inferior de soldados, entre 30 e 40 mil, que seriam operacionais num prazo bem mais curto, duas ou três semanas, mas os obstáculos materiais seriam mais ou menos os mesmos.
A presença de tal força muito provavelmente contribuiria para avalizar os interesses políticos do presidente Slobodan Milosevic, isto é, a partição definitiva do Kosovo. Por isso, por enquanto os países da OTAN mantêm a opção pelos ataques aéreos, como no Iraque em 1991, quando os bombardeios duraram seis semanas, antes da intervenção terrestre que durou apenas quatro dias.
Por isso, quanto mais os ataques aéreos atuais se mostrarem eficazes, mesmo não alterando a posição de intransigência de Milosevic, mais se viabilizará a hipótese de intervenção terrestre, sob uma forma que deverá responder a objetivos mais políticos do que militares da operação "Força Aliada". Em caso de malogro dos raids aéreos, isto é, os alvos militares não forem suficientemente danificados, a coalizão da OTAN teria necessidade de assumir riscos numa operação terrestre, pois não teria a garantia de uma proteção aérea adequada.
Essa intervenção terrestre vem sendo estudada pela OTAN desde outubro do ano passado como uma hipótese de ação, mas ela acabou sendo descartada por pressão dos EUA, país ainda traumatizada pela guerra do Vietnã, pelo fiasco da Somália e seduzido pela opção "zero morto".
O paradoxo nessa história é que tanto as forças da OTAN como as forças armadas iugoslavas foram treinadas nos últimos cinquenta anos para enfrentar uma eventual invasão das tropas do Pacto de Varsóvia, mas hoje a perspectiva é bem diversa.
O grande problema de Milosevic é que seu país é abastecido de petróleo pela Rússia, através de um oleoduto que atravessa a Hungria, que atualmente integra a OTAN e recebeu a incumbência de controlar esse fluxo, podendo interrompê-lo em caso de agravamento do conflito.
Por enquanto, os analistas da OTAN estão em busca de respostas a inúmeras perguntas fundamentais: Autorizar uma força terrestre para destruir as forças armadas sérvias, forças de segurança, forças paramilitares, milicias, etc? Ou apenas para garantir a constituição de uma zona desmilitarizada, sob controle da OTAN para garantir a estabilização das populações do Kososo?
Jacques Isnard lembra um outro aspecto importante. Quais os países que aceitariam participar de uma tal força? Sabe-se, por exemplo, que a Itália, onde já ocorrem reações importantes, dificilmente se envolveria nessa aventura. Não se pode esquecer que apenas 200 km separam a costa italiana no Adriático da Sérvia e de Montenegro. Quais os países que serviriam voluntariamente de base logística mais próxima do teatro de operações, podendo ser desestabilizados pela presença de forças estrangeiras no seu território? A Macedônia já acolhe 12.000 homens e uma parte da população tem-se mostrado extremamente hostil, muitas vezes lançando pedras na passagem dos veículos militares ocidentais.
A logística é também um problema O especialista militar francês lembra que é da Macedônia que partem dois eixos rodoviários importantes na direção de Pristina, capital do Kosovo. O resto do sistema rodoviário no Kosovo é insuficiente, caminhos e pontes estreitas nas montanhas, muitas delas minadas pelas forças sérvias. A Iugoslavia é um dos países que continua produzindo minas antipessoais, a chamada arma do pobre. Não se pode esquecer que além de um Exército relativamente bem equipado, as forças sérvias têm tradição na guerra de guerrilha, utilizando também suas numerosas unidades móveis.
Finalmente, o aspecto logístico deve também ser levado em conta.
Que portos e aeroportos seriam suscetíveis de garantir o abastecimento regular das tropas terrestres? Os 12 mil homens que se encontram na Macedônia já constataram as condições inadequadas para o desembarque de material pesado no porto de Salonica na Grécia e Durres , na Albânia.
Uma concentração de homens dez vezes superior aumentaria enormemente as dificuldades, mesmo se existe a experiência da Bósnia, onde as forças de interposição, o IFOR , eram constituídas por 60 mil homens. Por enquanto, a intevenção das forças terrestres no Kosovo tem sido debatida pelos estados maiores dos paises da OTAN, mas o presidente Bill Clinton é o seu maior adversário, temendo uma evolução perigosa do tipo Vietnã.





