Tropas da Otan entram em choque com sérvios
Bruxelas, 13 (AE-AP) Pelo menos um policial e um soldado sérvios morreram hoje (13) em Kosovo durante choques com tropas alemãs e britânicas. Um jornalista alemão foi morto por franco- atiradores. São as primeiras mortes desde o início da ocupação do território pelas forças internacionais de paz (Kfor), comandadas pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na madrugada de ontem. Um soldado alemão ficou ferido.
A 40 quilômetros de Pristina, onde operam forças canadenses, dois jornalistas alemães foram baleados por franco- atiradores. Um, atingido na cabeça, morreu; o outro, ferido no estômago, sobreviveu. Em meio a esse clima, chegou à capital de Kosovo o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, representante especial da ONU, encarregado de criar um governo para Kosovo (administração internacional provisória).
Na área diplomática, os presidentes Bill Clinton (EUA) e Boris Yeltsin (Rússia) continuam negociando a participação militar russa em Kosovo - cerca de 200 soldados russos impedem a entrada das tropas da Otan no Aeroporto de Pristina.
As tropas britânicas entraram em Pristina, aclamadas pela população albanesa étnica, que gritava em coro nas ruas: "Otan, Otan, Otan", e agitava bandeiras roxas de Kosovo, adotadas pelo Exército de Libertação de Kosovo (ELK). Alguns sérvios - minoria que insiste em permanecer na cidade - observavam à distância, visivelmente preocupados, a euforia dos albaneses étnicos. Outros foram apedrejados ao partir de carro.
Numa das ruas do centro da cidade, um jovem sérvio saiu de um bar e, quando preparava-se para entrar em seu carro, foi abordado por uma patrulha britânica de cerca de 30 homens. "Ordenamos seis vezes para ele entregar a arma que carregava na cintura", disse um porta-voz da patrulha. "Mas ele começou a disparar contra nossos homens, que reagiram, matando-o." Segundo informações divulgadas pela Otan, o jovem estava à paisana, mas era membro das Forças Armadas iugoslavas ou da polícia sérvia. O Centro Sérvio de Informações de Pristina identificou a vítima como Vaselin Jovovic, um civil.
Confirmou que ele estava armado, mas deu outra versão sobre o incidente: "Jovovic estava com as mãos para cima quando foi morto a tiros pela patrulha." Segundo ainda o centro sérvio, membros da patrulha ingressaram no bar e prenderam dois soldados sérvios.
O incidente envolvendo as tropas alemãs em Prizren (segunda maior cidade de Kosovo) parece ter sido mais grave. Como os ingleses, os alemães tiveram uma recepção festiva por parte dos habitantes albaneses étnicos, que viam partir dali uma coluna de soldados e civis sérvios, incluindo um padre ortodoxo.
Com a chegada dos alemães, os albaneses étnicos começaram a insultar os sérvios, que antes da retirada teriam incendiado várias casas. Os sérvios começaram a atirar para o ar e as tropas alemães intervieram. Nesse instante, franco-atiradores dispararam contra os soldados alemães, que responderam ao fogo. O tiroteio durou cerca de meia hora. Um franco-atirador morreu e um soldado alemão ficou ferido. O incidente foi confirmado pelo governo alemão em Bonn.
Tanto o presidente Clinton quanto o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, haviam previsto na semana passada problemas sérios para as tropas da Otan em Kosovo. Ambos admitiram "perdas de vidas" no processo de apaziguamento dos kosovares albaneses étnicos e sérvios.
O Centro Sérvio de Informação de Pristina enviou nota de protesto ao comandante das forças de paz, general britânico Michael Jackson, denunciando a ação de "terroristas" (como os sérvios chamam os rebeldes do ELK) que mataram dois soldados sérvios em retirada.
"A Kfor havia assegurado aos militares sérvios, no acordo de Kumanovo, que nenhum terrorista dispararia contra os soldados sérvios durante a retirada", lembrou o centro.
Segundo a Otan, cerca de 10 mil soldados e policiais sérvios já saíram de Pristina e outras áreas de Kosovo. A força sérvia ali era estimada pela aliança em 40 mil homens - entre soldados, policiais e paramilitares. Cerca de 30 mil civis sérvios teriam partido com os soldados para a cidade de Nis (sul da Sérvia), em carros, caminhões, ônibus e tratores, temendo represálias por parte dos albaneses étnicos - vítimas de anos de violenta repressão por parte do regime de Belgrado.
A preocupação das forças britânicas e francesas que entraram em Pristina agora é encontrar um local apropriado para estabelecer o QG da Kfor. Aparentemente, o local ideal era o aeroporto. Mas um tanque russo está bloqueando a estrada, impedindo a passagem de um contingente francês.
Cerca de duas centenas de russos, com tanques, aguardam no local a solução para a "precipitada invasão" de Kosovo, com a qual os militares russos pretenderam dar como fato consumado sua reivindicação: um setor de Kosovo para a Rússia.
Os russos pretendem ocupar a área noroeste da província, habitada pela minoria sérvia. Eles querem também um comando próprio de suas ações militares, desvinculado da Otan.
Quanto ao setor reivindicado, os Estados Unidos já concordam em ceder. "O pedido dos russos quanto a isso é justo e compreensível", admitiu, em Moscou, o subsecretário de Estado americano, Strobe Talbott. O problema está no comando separado, com o qual a Otan não concorda. Clinton e Yeltsin debateram a questão por telefone durante vários minutos na manhã de hoje.
E deverão continuar os contatos amanhã, embora, segundo fontes diplomáticas, tenham concordado em deixar o caso ser resolvido pelos generais russos e da aliança. Clinton e Yeltsin vão debater a questão da participação russa esta semana em Colônia, na reunião de cúpula dos chefes de Estado e governo do Grupo dos Oito (sete países mais ricos e a Rússia).





