São Paulo, 12 (AE) - Em nenhum momento a Tropa de Choque da Polícia Militar atirou para o alto, hoje, na Unidade Imigrantes da Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor (Febem), em São Paulo. Para reagir às ofensas dos familiares que aguardavam havia horas informações sobre os filhos, após a fuga de 500 internos na noite de ontem e na manhã de hoje, os policiais apontaram as armas para baixo e, conforme haviam prometido minutos antes, atiraram. As balas de borracha feriram vários parentes e cinegrafistas.
De cima do caminhão que transportava dezenas de menores recapturados, amontoados na boléia, acertaram ombros, barrigas, pernas e costas de quem estava em volta. Repórter e fotógrafo do Grupo Estado também estavam na mira do fogo: escaparam. Dois cinegrafistas que registravam as cenas foram atingidos e atendidos nos hospitais da região. A estudante Roberta Gimenez, de 14 anos, recebeu um tiro na perna e foi atendida no Hospital Municipal Doutor Artur Ribeiro de Sabóia, no Jabaquara.
Provocação - Minutos antes do primeiro tiro, um dos policiais da Tropa de Choque provocava os familiares, enquanto o caminhão fazia manobras para entrar na Febem. "Vem aqui, vem aqui", gritava, apontando a parte mais próxima do caminhão, anunciando a disposição de atirar. Por várias vezes, com a lona do caminhão aberta na parte de trás
eles apontaram os rifles para a multidão, desde o momento que deixaram a unidade para buscar os internos. No momento em que um tijolo, de origem desconhecida, era atirado no caminhão, os policiais começaram a atirar a esmo, em diversas direções, com balas de borracha.
Feridos - Nessa guerra entre atiradores de pedra e policiais treinados pelo menos oito pessoas foram parar no hospital. Um dos tijolos atingiu um repórter. Nenhum policial ficou ferido. O cinegrafista Carlos Alberto Correia, da Rede Bandeirantes, levou três tiros. A maior parte dos familiares estava na fila para visitas, seguindo orientação da Febem. "Nem vi ele atirando", contou Kelly Cristina, que aguardava notícias sobre o irmão e levou um tiro no braço. A dona de casa Cristian Barbosa de Brito tomava um leite com chocolate durante a confusão e recebeu uma bala nas costas. "Quando fui me virar para ver o que estava acontecendo, levei", disse.
O auxiliar de topografia Francisco Barbosa da Silva viu as cenas da rebelião pela televisão e foi ver como estavam a mulher e o filho. "Fiquei olhando o caminhão encostado", contou. "O cara olhou para mim e atirou na barriga." Ele foi atendido no próprio local por uma ambulância da Ecovias, empresa que administra o Sistema Anchieta-Imigrantes. A mesma ambulância levara a mãe de um interno para o hospital, em crise nervosa.
O comandante da Tropa de Choque, coronel Osvaldo de Barros Júnior, chegou quase uma hora depois do tiroteio. "Disseram-me que o caminhão adentrava quando tentaram resgatar os menores. "Se houve abuso será apurado e tomaremos as medidas administrativas cabíveis para quem fez uso da arma", disse.
Apesar das denúncias de abuso de autoridade, ele disse que ninguém seria retirado da operação, que ainda continuava. "Essa é a tropa que temos", disse. Outra versão que passaram ao comandante foi a de que os cinegrafistas teriam tentado "filmar dentro do caminhão". Fotos e imagens mostram o interior do caminhão, mas ninguém tentou entrar."Vou ver as imagens amanhã."
Minutos após a guerra entre fuzis e tijolos, mães e pais aguardavam informações no portão. Perfilados a cerca de 50 metros, os soldados da Tropa de Choque olhavam a cena. Boa parte deles ria. No início da noite, familiares em busca de informações continuavam no local, apesar das dificuldades. Ao anoitecer, os postes destinados à iluminação pública, no entorno da Febem-Imigrantes, não ofereciam luz.

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