Troca de bandeira quase leva França e Israel a incidente diplomático Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 25 (AE) - O primeiro-ministro francês Lionel Jospin está em Israel. A cidade de Jerusalém preparou tudo muito bem. Todas as ruas e praças estavam enfeitadas com bandeiras, à espera do líder francês.
Infelizmente, o especialista israelense em bandeiras fêz uma confusão: a cidade três vezes santa estava enfeitada com as cores dos Países Baixos. Houve quase um incidente diplomático. Mas as cores holandesas foram substiuídas "in extremis" pelas cores francesas.
Esta "desafinação" seria um mau agouro? Há alguns dias pairou este receio porque o ministro das Relações Exteriores de Israel, o rancoroso David Levy, denunciou um erro de protocolo francês.
O Quai dOrsay se esquecera de mencionar que Jospin faria uma importante etapa em Jerusalém. "Negligência culpável", gritou Levy, porque Israel faz questão de dizer que Jerusalém é a capital do Estado judeu - o que é verdade na prática, mas os ocidentais se recusam a aceitar isso.
A viagem de Jospin iria então soçobrar por causa da suscetibilidade ferida dos israelenses tratando-se de Jerusalém?
Mas bem depressa voltou a confiança: depois dessa "crise nervosa", os israelenses se tornaram mais amáveis. É que a viagem de Jospin devia inaugurar relações inteiramente novas entre os dois países. Era preciso não desperdiçar esta oportunidade.
Em um passado recente, as relações entre os dois países foram frequentemente tempestuosas. A França de Charles de Gaulle decretou um embargo militar depois da guerra árabe-israelense de 1967. Mais recentemente, no tempo de Benjamin Netanyahu, a França congelou as relações com Israel porque desaprovava a fúria com que Netanyuahu destruía, pedra por pedra, o edifício da paz entre Israel e os palestinos. Além disso, Netanyahu só "jurava" em nome dos Estados Unidos.
Hoje, Paris gostaria que Israel "jurasse" igualmente pela França. A idéia é esta: Ehud Barak é socialista como Jospin e inspira confiança.
Os franceses não duvidam absolutamente da vontade de Barak de concluir a paz com palestinos e sírios. Assim, embora nenhum ministro francês tenha viajado a Jerusalém entre novembro de 1997 e outubro de 1999, o novo primeiro-ministro Ehud Barak já encontrou três vezes o presidente Jacques Chirac e duas vezes Lionel Jospin.
Para os israelenses, a mesma atitude: o processo de paz está enterrado na areia movediça. Há algumas semanas, quando um acordo com Síria e Líbano parecia estar ao alcance das mãos, a paz afastou-se bruscamente.
Paralelamente, os franceses acreditam que Israel, sem negligenciar o apoio imprescindível dos Estados Unidos, não se incomodaria em diversificar seus apoios. O próprio Barak declarou-se muitas vezes disposto a jogar a "carta européia" e francesa. Jospin está tentando cumprir esta tarefa que exige tato e sutileza para evitar que uma reaproximação com Israel provoque a raiva dos árabes, especialmente dos palestinos, que a França tradicionalmente sempre favoreceu.
Deverá ser portanto um exercício de equilíbrio. Podemos supor que Jospin dará seu apoio a Israel em face do Líbano, denunciará as operações terroristas do Hezbollah no Sul do Líbano e, ao mesmo tempo, defenderá a criação de um Estado palestino.
Jospin atribui grande importância a esta viagem. E a relaciona também com alguns cálculos de política interna: o primeiro-ministro Jospin encontra dificuldade para se impor no campo da diplomacia porque o presidente da República, Jacques Chirac, considera a política externa seu "campo reservado" e não deixa passar nenhuma ocasião para "demarcar seu território".
Faltando dois anos para as eleições presidenciais, Jospin pretende reagir. Israel, a propósito do qual as teses de Jospin contrastam com as teses de Chirac, poderia fornecer a ocasião para este reequilíbrio das responsabilidades diplomáticas entre o presidente e seu primeiro-ministro.





