Parlamentares trocam de partido antes de iniciar mandato Por Gerson Camarotti
Brasília, 29 (AE) - A dança das cadeiras às vésperas de iniciar a próxima legislatura causou uma crise política na Câmara que ameaça fragmentar a base de apoio do presidente Fernando Henrique Cardoso no Congresso. A iniciativa de vários deputados em mudar de partido antes mesmo de começar o mandato está causando revolta entre os líderes das principais legendas. A expectativa é que até segunda-feira pelo menos 30 deputados mudem de partido.
Uma avaliação prévia mostra que o PMDB será a legenda mais favorecida e o PPB o partido mais prejudicado. Com esse novo quadro, até a recondução do presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), passou a ficar ameaçada. Já o PPB deverá ser rebaixado para a quinta colocação entre os maiores partidos da Câmara, perdendo o posto para o PT. Com isso, a legenda deixaria de ocupar a segunda vice-presidência (Corregedoria da Câmara), hoje ocupada por Severino Cavalcanti (PPB-PE).
A notícia irritou os parlamentares pepebistas, que podem ver a bancada encolher de 60 deputados eleitos para pouco menos de 50. Diante da disputa para segurar e cooptar novos deputados durante todo o dia de hoje, não faltaram acusaçäes de que o PMDB estaria utilizando uma forte pressão política para fortalecer a legenda. As estimativas mais otimistas entre os caciques do próprio partido indicavam que o PMDB poderia pular dos 82 deputados federais eleitos na última eleição para cerca de 100 nesta segunda-feira.
"Um dia é da caça e outro é do caçador", disse o líder do PMDB na Câmara, deputado Geddel Vieira Lima (BA), ao lembrar que em 1994 o partido havia eleito 107 parlamentares e acabou com 86 deputados. "Naquela época saíram deputados sobretudo para o PSDB comandado pelo ex-ministro Sérgio Motta", disse Geddel, achando natural o que aconteceu com sua bancada, já que o partido vivia uma "guerra civil interna" entre governistas e oposicionistas. "Hoje o partido vive em paz e tem projeto de poder, fatores que tornam a legenda atrativa", avaliou.
Geddel comemorava a entrada dos novos parlamentares no PMDB. Afinal, com o crescimento da bancada o partido poderá ter mais espaço na Câmara, indicando o maior número de relatores e presidentes de comissäes. Hoje o PMDB é o terceiro partido da casa, perdendo para o PFL, com 106 deputados, e o PSDB, com 99 parlamentares.
Hoje, novos filiados ao PMDB já passeavam pelo gabinete da liderança do partido. Os deputados Flávio Derzi (ex-PPB-MS) e Osvaldo Reis (ex-PPB-TO) explicavam o motivo da troca. "O PPB tinha um sol, que era o prefeito Paulo Maluf, mas agora o partido está sem futuro", comentou Derzi.
Os dois não são os únicos pepebistas que devem entrar no PMDB. Entre os nomes levantados pelo Estado estão os de Jorge Tadeu (PPB-SP), Mário de Oliveira (PPB-MG), Lamartine Pozella (PPB-SP) e Salatiel Cavalcanti (PPB-PE). "Precisamos ser prestigiados", explicou Pozella. Até no PSB o PMDB está engrossando as fileiras. O deputado Joca Colaço (ex-PSB-PE) mudou de casa. Já o PPB perde deputados para todos os partidos. Na noite de quinta-feira, o governador de Roraima, Neudo Campos, reuniu em Brasília toda a bancada do partido para liberar os deputados.
Hoje, o líder do PPB, Odelmo Leão, tentava segurar os deputados de Roraima. Luiz Barbosa e Almir Sá ameaçavam ir para o PFL e Airton Cascavel para o PSDB. "Respeitem o meu partido para que seja preservada a boa convivência dos partidos aliados"
ameaçou Odelmo Leão. Já o vice-líder do PPB, deputado Gerson Peres (PA), declarou guerra. "Estão aliciando deputados entre os aliados numa autofagia que vai destruir o governo", avisou Peres. "Não sabemos quais são as propostas de aliciamento, mas partidos que mantêm ministérios avantajados como o dos Transportes podem oferecer bem mais do que o PPB."
"O que estão fazendo é uma palhaçada", completou o segundo vice-presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PPB-PE). "Essa atitude pode levar o partido a tomar uma posição de independência caso o presidente Fernando Henrique não interfira"
avisou Peres. O vice-líder do PFL, deputado José Carlos Aleluia
não deixou por menos a ação do PMDB. "O partido não tem nenhum atrativo para explicar nenhum afluxo anormal de novos deputados"
Em 1993, estourou o escândalo da compra de 14 deputados pelo PSD. Na ocasião os deputados Onaireves Moura (PSD-PR) e Nobel Moura (PSD-RO) ofereciam até 50 mil dólares para o parlamentar que mudasse de partido.
Hoje, o deputado Geddel Vieira Lima rebateu qualquer insinuação sobre compra de deputados para trocar de partido. "Quem fala de métodos heterodoxos deve estar-se olhando no espelho", rebateu Geddel, ressaltando que não cooptou ninguém. Ele estava revoltado com as ameaças dos aliados de retirar o apoio ao presidente Michel Temer. "Ameaça, comigo não, violão!"

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