Triste início de milênio Do correspondente GILLES LAPOUGE
PARIS (AE) - Os historiadores do futuro dirão que nos últimos anos do século 20 houve um breve período de felicidade - por volta de 1990.
Durante alguns anos, a História, que havia revestido a máscara do pesadelo desde 1914, mudou de cores, pôs-se a sorrir, disse que as sociedades podiam viver sem assassinar. Não se voltaria mais a esse pesadelo: às carnificinas que conspurcaram o século 20 com seu visco pegajoso (as dos nazistas, dos comunistas e dos colonizadores) haviam batido em retirada. Um mundo de fraternidade, de justiça e de tolerância estava para nascer. Sobretudo um mundo de ordem. O nazismo, mestre da degradação, morreu em 1945. O comunismo, este outro Estado-assassino, entrou em coma em 1989 com a destruição do Muro de Berlim para morrer dois anos depois, no final de 1991, quando implodiu o Império do Frio. O caro George Bush profetizou uma "nova ordem internacional" e chegou até a nos impingir, como brinde, uma filosofia com ressaibos de Friedrich Hegel: "O fim da História". Os "médicos franceses" ("Médecins sans frontires") cuidavam dos aflitos e dos mutilados. A doutrina da "ingerência" abria caminho. A ONU, desvencilhada da URSS, com a assistência da Otan (dos Estados Unidos) ia colocar ordem no caos.
Dez anos se passaram e qual é o espetáculo? Kosovo, já sangrado pelos sérvioos e pela Otan, conta suas ossadas e prepara novas carnificinas.
A Argélia inicia o Ramadã praticando assassinatos. O Afeganistão está se massacrando há 21 anos, a Colômbia se estripa. O Sul do Sudão, a Etiópia e a Somália, a Eritréia estão esvaídas em sangue. A áfrica Negra dos Grandes Lagos no Congo, usa seus derradeiros vintens para comprar armas para outros genocídios. A Rússia degola o povo da Chechênia e o Ocidente - ontem tão rápido em atirar bombas sobre a Sérvia e Kosovo - faz cortesias a Yeltsin. Mais de cinquenta milhões de refugiados, no mundo inteiro, agonizam em acampamentos de lona.
Trezentos milhões de crianças estão vagindo no inferno...
O início do milênio é muito triste: não podemos deixar de perguntar se o século que se abre não irá entregar-se - como o que está se encerrando - ao luto, à injustiça e ao sangue? O novo século que nasce não será o "clone" ou o "irmão gêmeo" do século que morre?
Seja como for, o sistema geopolítico de 2000 não tem grande relação com o de 1900. Há um século, o Planeta era regido por Nações-Estados (herdeiras do Tratado de Westfália de 1634 e do Congresso de Viena em 1815). Em 1900, nenhuma potência (com exceção das coloniais, predadoras), teria tido a louca idéia de intervir em seu vizinho, a não ser que tivesse escolhido a guerra. As fronteiras eram sagradas.
Hoje, depois das tormentas deste tempo, a Nação-Estado (o Leviatã, o monstro frio, como dizia Hobbes) está vacilando. Sofre ataques reiterados e brutais: os "Médécins du Monde" (e entre outros Bernard Kouchner) impuseram o "direito de ingerência". Princípio impensável e sacrílego há apenas 50 anos. Ora, hoje todos admitem, todos aprovam esse direito. Ele é muito bem ilustrado tanto pela criação do Tribunal de Haia (Iugoslávia, Ruanda), quanto pela prisão de um tirano sanguinário longe de sua pátria, ou pela intervenção de forças estrangeiras em Ruanda, Kosovo e Bósnia. Com certeza, frequentemente, estes empreendimentos mudaram repentinamente de direção e trataram de um mal gerando outro ainda maior. Mas resta essa conquista: um Estado (ou um homem) não pode mais entregar-se impunemente à infâmia. As fronteiras que protegem sua fúria não são mais sagradas.
A Nação-Estado sofre dois outros desafios, aliás de natureza discordante: o primeiro é o da apoteose destas potências "fora do Estado", que são os grande grupos financeiros. De agora em diante, os que impôem a ordem no mundo inteiro não são mais o presidente ou este ou aquele príncipe, nem mesmo Clinton, mas sim as empresas multinacionais, que desprezam as fronteiras, agem no mundo inteiro, frequentemente zombam dos controles e até mesmo das leis, e são muito mais ricas que as naçõees: o faturamento da General Motors é de 178 bilhões de dólares, muito superior ao PIB da Dinamarca, da Tailândia ou da Noruega. E a filha maldita destes polvos financeiros é uma corrupção vertiginosa. Todos os anos, um bilhão de dólares de dinheiro impuro e talvez assassino é lavado, ou seja, o equivalente a três quartos do Produto Bruto da humanidade inteira.





