Trinta brasileiros acompanham referendo em Timor
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sábado, 28 de agosto de 1999
Por Cláudia Dianni 
Brasília, 29 (AE) - Trinta brasileiros participam amanhã (30) da consulta popular no Timor Leste, que vai perguntar à população, de cerca de 800 mil timorenses, se preferem optar por um regime de autonomia especial, dentro da República da Indonésia, ou pela total independência. Os brasileiros colaboram com a missão das Nações Unidas no Timor Leste, a Unamet.
Estão em territórios timorenses para acompanhar a consulta cinco oficiais militares de ligação, seis observadores policiais
que acompanham os movimentos nas ruas de Dili e sinalizam focos de conflito, e dezenove peritos eleitorais do Tribunal Superior Eleitoral, que vão fiscalizar o pleito e a apuração dos votos, que será feita em Jacarta, por questões de segurança.
A mais recente equipe de brasileiros, formada por três parlamentares, chegou no sábado à capital do Timor, Dili, acompanhada do embaixador do Brasil na Indonésia, Jadiel Ferreira. Os deputados João Hermann Neto (PPS-SP), Pedro Valadares (PSB-SE) e Paulo Delgado (PT-MG) farão o trabalho de observadores durante a consulta popular, para tentar garantir que não haverá manipulação. Eles devem permanecer no Timor até quarta-feira.
A diplomacia brasileira está preocupada com o recrudescimento da violência e da intimidação aos independentistas no Timor na última semana. Choques entre as milícias antiindependência e os grupos separatistas voltaram a causar mortes na semana passada. A consulta, estabelecida em maio pela Indonésia, Portugal e pela ONU, para ser realizada no dia 8 de agosto, foi adiada por causa da violência. Em julho, um ataque a uma missão das Nações Unidas deixou um saldo de 12 feridos.
De acordo com o Itamaraty, porém, o governo brasileiro acredita no êxito da consulta popular e espera que as autoridades indonésias cumpram os compromissos assumidos. Apesar do otimismo do Itamaraty com o resultado da consulta, há preocupações isoladas de que o Timor possa transformar-se em uma espécie de Angola, uma vez que a independência seja alcançada. O temor seria de que as facções continuassem a espalhar terror pelo território mesmo depois da independência, dividindo os timorenses. Há quatro facções no Timor, a União Democrática Timorense (UDT), que defende a autonomia progressiva do território, a Associação Social Democrática Timorense, conhecida como Fretilim, a Frente Revolucionária do Timor Leste Independente, liderada por Xanana Gusmão, e a Associação Popular Timorense (Apoditi), que defende a integração à Indonésia.
O embaixador brasileiro acredita na vitória dos independentistas. O Itamaraty já estuda as missões de ajuda que deverão ser enviadas ao Timor, caso vençam os independentistas. Estão sendo preparados professores brasileiros de ensino básico, técnicos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), para ajudar na produção agrícola e no tratamento de água e esgoto. De acordo com o Itamaraty, as tecnologias brasileiras são assimiláveis no Timor por serem voltadas para países em desenvolvimento e de clima tropical, como o Timor.
O Timor foi colônia de Portugal até 1975, mas anexado à Indonésia em 1976. Desde então, o governo de Jacarta reprimiu os movimentos pró-independência. Maior país islâmico do mundo, a Indonésia é uma arquipélago formado por 17 mil ilhas, com um total de 206 milhões de habitantes e cerca de 300 etnias. O governo indonésio temia estimular o separatismo ao conceder a independência ao Timor, onde cerca de 80% da população é católica. Mas, em janeiro, o governo da Indonésia surpreendeu ao anunciar que estava disposta a conceder a independência ao território.
Além disso, o governo da Indonésia também prometeu conceder uma "residência especial" ao líder da resistência timorense Xanana Gusmão, cotado para ser presidente do Timor, caso prevaleça a independência.
Ele só deverá ser libertado de sua prisão em Jacarta, porém, uma semana depois da apuração da consulta, como promete o governo indonésio.
Xanana Gusmão cumpre pena de 20 anos pela qual foi condenado em 1993 por atentar contra a segurança do Estado da Indonésia e posse ilegal de armas Estima-se que cerca de 200 mil pessoas tenham morrido de fome, doenças ou nas lutas, desde a anexação do Timor pela Indonésia, que nunca foi reconhecida pela ONU.


