Curitiba - A decisão do casal de Curitiba que desistiu de uma das filhas trigêmeas logo após o nascimento delas causou perplexidade em todo o Brasil quando o caso tornou-se público na semana passada. Como entender esse abandono, principalmente levando em consideração que a mãe só engravidou porque os pais foram submetidos a um tratamento para infertilidade, passando por um processo de fertilização assistida em uma das principais clínicas da capital?
  A professora de Direito da Família e Direito da Criança e do Adolescente da UniCuritiba, Camila Marquez Bresolin Bressanelli, acredita que esse caso é ‘‘chocante’’ porque os pais passaram por um processo de gestação assistida e sabiam das chances da mãe desenvolver gravidez múltipla. A professora está fazendo mestrado e o tema escolhido para pesquisa foi a responsabilidade civil do médico na reprodução assistida.
  Camila Bressanelli lembra que os pais não podem negar ao filho o direito à convivência familiar saudável e o direito de viver dignamente. ‘‘O mais grave é que essas crianças foram buscadas (através do tratamento médico) e eles sabiam que corriam risco de ter até quatro filhos’’, afirma. Na opinião dela, os pais passaram por cima do fato que a convivência familiar é um direito fundamental da criança e que a nova lei de adoção brasileira prega a não separação de grupos de irmãos.
  Na opinião da docente, a juíza curitibana agiu de maneira correta quando optou pelo afastamento das trigêmeas dos pais, encaminhando-as para um abrigo. As meninas nasceram em janeiro em uma maternidade de Curitiba e desde a gestação os pais sabiam que seriam trigêmeas. O pai, nutricionista, teria se mostrado desfavorável ao número de bebês. Funcionários da maternidade disseram que, após o nascimento, eles manifestaram o desejo de ficar apenas com um bebê, mas depois teriam concordado em levar duas. A mãe das meninas é economista.
  A diretoria da maternidade acionou o Ministério Público que obteve uma liminar entregando as crianças ao Conselho Tutelar. Hoje elas estão em um abrigo aguardando a decisão judicial. Os pais se dizem arrependidos e querem novamente a guarda das três crianças.
  Para a psicóloga paulistana Luciana Leis, especialista no tratamento de pessoas com problemas de fertilidade, o caso paranaense demonstra a necessidade de acompanhamento psicológico nas clínicas de gestação assistida. ‘‘São várias as motivações que levam os casais a fazer o tratamento, mas nem todos têm certeza do que eles querem’’, explica. Luciana comenta ainda que sessões com o terapeuta vai ajudar os próprios pais a descobrirem se têm maturidade para encarar as consequências de uma gravidez múltipla.
  Outro fator levantado pela psicóloga é que nem todos os casais que se propõem a ter um filho realmente o desejam. Ela explica: ‘‘O desejo de ter um filho se relaciona com o fato de querer ter uma criança para cuidar, passar experiências, educar, dar e receber afeto. Além disso, esse desejo também está vinculado às nossas necessidades de satisfação narcísica, ou seja, de poder ver na criança nossos traços, desta ser um representante da continuidade de nós mesmos, reafirmação de nossa feminilidade/masculinidade, de podermos corresponder às expectativas de nossos pais que aguardam por um neto, dentre muitas outras razões’’.
  A especialista paulistana afirma que é preciso se questionar sobre a verdadeira intenção por um filho ‘‘quando o desejo de satisfação narcísica, através da criança, se sobressai ao desejo de querer cuidar e conviver com ela’’.
  Mais uma consideração levantada por Luciana Leis é quanto um casal pode lidar com o fato da maternidade e da paternidade serem diferentes da forma como eles idealizaram ‘‘e assim poderem aceitar essa nova realidade: três bebês, em vez de dois’’.

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