Tribunal suíço quer julgar suspeitos de desfalque na Aeroflot Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 19 (AE) - A justiça suíça cerca impiedosamente o magnata e financista Boris Berezovski, um dos assessores do presidente russo, Boris Yeltsin. As garras dos juízes helvéticos são tenazes. O Tribunal Federal, ou seja, a mais alta instância judicial da Suíça, acaba de revelar que a empresa de aviação russa, Aeroflot, teria sofrido um enorme desfalque de 600 milhões de dólares. E quem seria o autor desse roubo? Exatamente Berezovski, juntamente com dois outros ex-diretores da Aeroflot.
Os sistemas de corrupção são complexos e extremamente complicados e não se pode penetrar facilmente nesse labirinto. O importante é constatar que os suíços, durante muito tempo indiferentes, mas posteriormente despertados pela ex-Procuradora Geral da Federação, Carla del Ponte (hoje à frente do Tribunal Penal Internacional), não deixarão os suspeitos escapar facilmente da justiça. As provas desse rigor são estas: cartas rogatórias enviadas pela justiça suíça à Rússia, a viagem de uma delegação de magistrados suíços a São Petersburgo na semana passada. O tribunal suíço pretende levar os suspeitos a julgamento.
O grande volume de dinheiro desviado por Berezovski e seus amigos mostra a escala da corrupção que devora o corpo da Rússia. O país está à deriva. Um estudo preparado pelo instituto americano Mc Kinsey causa espanto: o Produto Interno Bruto (PIB) da Rússia caiu 40% nos seis últimos anos. A produtividade do trabalho atinge níveis históricos de queda: representa apenas 15% da produtividade americana.
Na indústria pesada, um terço dos empregados não está recebendo os salários. O Estado recolhe apenas um quarto das receitas fiscais teóricas.
O Instituto Mc Kinsey pesquisa as causas desta deterioração generalizada. Aponta os laços de corrupção que unem os poderes locais e as empresas. Além disso, os mesmos poderes locais, temerosos de uma explosão social, subvencionam fábricas obsoletas. Na indústria pesada, por exemplo - um verdaderio campo em ruínas - fábricas quase paralisadas continuam sendo ajudadas pelos poderes locais para evitar explosões e revoltas.
Outro exemplo: a indústria de petróleo é poderosa. Com 1% do total dos salários russos, o petróleo representa 16% das exportações e 22% dos ingressos fiscais. Infelizmente, desde 1990, não se fez nenhum investimento para manter os campos e os poços de petróleo. Resultado: a produtividade está em queda livre. A produção declina. Salvo um milagre, este grande país exportador de petróleo , deverá começar a importá-lo a partir de 2005.
O relatório Mc Kinsey é desolador. Com certeza, já sabemos de longa data em que precipício a Rússia caiu há dez anos. Mas o interesse do relatório Mc Kinsey é que ele desvenda cientificamente e com números incontestáveis a mecânica de um desastre. Há dez anos, o Ocidente se esforça (e se arruina) para inocular os princípios da economia liberal nos herdeiros da União Soviética. Na verdade, o que se introduziu na Rússia por meio desta longa cura não foi tanto o liberalismo, mas sim as pústulas mais repugnantes do liberalismo: o egoísmo , a preguiça e a corrupção.





