Tribunal Internacional começa a julgar massacre de Srebrenica Do correspondente Gilles Lapouge13/Mar, 15:30 Paris, 13 (AE) - Existem nomes que emanam horror e vergonha, como Auschwitz, Ouradour-sur-Glane ou Gulag. Um destes nome será pronunciado muitas vezes nos próximos dias em Haia, onde o Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia está julgando, a partir de hoje (13), Radislav Krstic, por genocídio: este nome sinistro é Srebrenica, cidade da Bósnia onde as legiões e os vagabundos sérvios, sob o comando desse general sérvio, fizeram correr rios de sangue em julho de 1995. Em 1995, a Sérvia degolava a Bósnia e atacava a cidade de Srebrenica, numa região muçulmana próxima da fronteira com a Sérvia. Na época, essa cidade estava dentro de uma "zona de segurança", isto é, estava protegida pela ONU. Mas isso não importava: os sérvios a atacaram assim mesmo. Apavorados, os moradores da cidade buscaram refúgio junto aos "capacetes azuis" da ONU ou fugiram para os bosques. Tudo em vão: os matadores capturaram uns e outros e os mataram, os massacraram. Na floresta foram encontrados milhares de corpos com as mãos atadas, os olhos vendados, assassinados com um tiro na nuca. E até hoje outros cadáveres continuam sendo desenterrados. Radislav Krstic, hoje no banco dos réus em Haia, foi o chefe operacional do massacre (7 a 8 mil pessoas assassinadas). O fato de estar sendo agora julgado é um caso exemplar, porque se trata de um homem brutal e, ao mesmo tempo, porque Srebrenica é uma das cavernas mais fétidas de nossa época (assim como, hoje, os massacres de chechenos mereceriam figurar no grande livro da infâmia). Mas é preciso não esquecer que, por mais culto que fosse, Krstic não foi o idealizador desse massacre. Acima dele havia o general Ratko Mladic, comandante do Exércio bósnio-sérvio no Vale de Drina, Radovan Karadzic, e, naturalmente, o presidente sérvio Slobodan Milosevic (que continua sempre em exercício em Belgrado). A combativa presidente do Tribunal de Haia, a juíza suíça Carla del Ponte (que sucedeu à excelente canadense Louise Harbour) acaba de lembrar que pretende julgar também esses três homens. O processo de Srebrenica tem também uma outra face, inquietante, dolorosa. Coloca em questão a responsabilidade, não somente dos sérvios, mas também da ONU e dos ocidentais. De fato, se os sérvios puderam entregar-se tranquilamente à sua carnificina, foi porque a ONU "refletia", embora havia dois anos (abril de 1993) Srebrenica e outras quatro cidades da Bósnia tivessem sido oficialmente colocadas pelo Conselho de Segurança sob a proteção da ONU. Ora, desde o momento em que os matadores sérvios se abateram sobre a cidade, a ONU desapareceu. Apesar disso, havia ali um batalhão de capacetes azuis holandeses que ficou apático e desinteressado. E como se explica que a Força da ONU na Bósnia, sob a direção do general francês Bernard Janvier, não teve nem mesmo a idéia de exigir a intervenção aérea da OTAN para deter esssa carnificina? Esta apatia da comunidade internacional durante a "festa dos degoladores" é tão surpreendente que, mais tarde, as famílias das vítimas colocaram em causa a responsabilidade do campo ocidental - o governo holandês daquela época, o secretário geral da ONU, Boutros- Boutros Ghali, o general Janvier, o britânico Michael Rose e até mesmo o presidente francês Jacques Chirac. Uma associaçãodas "mães de vítimas de Srebrenica" tentou recentemente persuadir o Tribunal Penal Internacional a agir contra essas altas personalidades ocidentais - o que entretanto foi recusado porque, com toda evidência, mesmo que os ocidentais tenham falhado por inércia ou distração, em momento algum programaram uma ação desse tipo, como o fizeram os militares sérvios. Convenhamos que a idéia destas mães de vítimas de Srebrenica era muito surrealista: fazer comparecer perante o mesmo Tribunal Internacional, os matadores de Srebrenica e os responsáveis ocidentais (ONU, Força de Paz na Bósnia, etc), que estavam encarregados de impedir a matança!

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