Tribunal condena comandante de campo de concentração
Zagreb, 04 (AE-AP) - Dinko Sakic, o último comandante vivo conhecido de um campo de concentração da Segunda Guerra Mundial, foi declarado hoje (04) culpado de crimes contra a humanidade e sentenciado a 20 anos de prisão.
Sakic, 78 anos, foi considerado responsável pelo assassinato de cerca de 2.000 pessoas. Ele ou executou pessoalmente os assassinatos ou permitiu a matança quando administrou o infame campo de concentração croata de Jasenovac em 1944.
Enquanto o presidente do júri, juiz Drazen Tripalo, anunciava o veredito, Sakic aplaudia ironicamente. Um rumor de desapontamento pôde ser ouvido no tribunal, provavelmente vindo de uns poucos políticos direitistas que acompanhavam o julgamento.
Tripalo disse que o tribunal de sete integrantes considerou Sakic culpado de todas as acusações, e que o comandante, "maltratou, torturou e matou detentos - atos que ele ou pessoalmente ordenou, participou, ou não fez nada para evitar que seus subordinados o fizessem". Ele também afirmou que Sakic era pessoalmente responsável pelo assassinato de detentos.
"Esperamos que a sentença - emitida 55 anos depois dos eventos - seja um aviso para todos os que cometeram crimes num passado próximo ou remoto que não irão escapar da justiça", disse Tripalo. "Também esperamos que o veredito seja um aviso para o futuro".
Jasenovac, descrito por grupos judeus como o "Auschwitz dos Bálcãs", foi o pior de mais de 20 campos de concentração mantidos pelo estado fantoche pró-nazista da Croácia. Dezenas de milhares de sérvios, judeus, ciganos e croatas antifascistas morreram em Jasenovac entre 1941 e 1945.
Tripalo disse que "o óbvio sofrimento generalizado de detentos" e a "falta de remorso" demonstrada por Sakic, eram circunstâncias agravantes.
Detentos eram submetidos a tortura física, fome e trabalhos extremamente duros, que levaram à morte um número desconhecido de detentos, segundo o tribunal. Sakic também foi responsável por incidentes nos quais indivíduos ou grupos foram levados para certos prédios no campo, onde foram torturados ou mortos, afirma o veredito.
Sakic também foi considerado culpado de matar ou permitir que detentos doentes fossem mortos, e por promover "punições individuais ou coletivas" a fim de intimidar os detentos.
Ele também foi responsabilizado por massacres e enforcamentos, assim como por permitir que guardas "matassem sem razão". Os crimes "não foram excessos, mas um procedimento sistemático que certamente não ocorria sem o conhecimento do comandante," disse Tripalo, acrescentando que o papel de Sakic como comandante foi provado durante o julgamento.
O advogado de Sakic, Ivan Kern, disse que irá apelar do veredito.
Tommy Baer, ex-presidente da organização judaica Bnai Brith, elogiou a decisão da corte. "Este deveria ser um dia de orgulho para a Croácia. O juiz-presidente deu uma explicação profunda, completa, tanto do julgamento quanto das razões para a sentença".
Depois que a decisão foi anunciada, vários extremistas de direita reuniram-se em frente do tribunal, cantando músicas croatas da Segunda Guerra Mundial. Um deles agrediu um ativista de direitos humanos na cabeça, ferindo-o levemente, antes que a polícia dispersasse os direitistas.
Durante o julgamento de seis meses, mais de 30 sobreviventes do campo lembraram da fome, de doenças não tratadas e da morte daqueles considerados incapazes para o trabalho. Eles afirmaram que temiam por suas vidas e que viram outros sangrando ou sendo mortos.
Pelo menos quatro testemunhas viram Sakic descarregar seu revólver na cabeça de um detento, o médico Milo Boskovic.
Sakic mostrou-se calmo durante os depoimentos, parecendo completamente inabalável, às vezes até entediado. Ele riu de um testemunho e classificou outros de "fantasias" ou propaganda anticroata.
Sakic fugiu da Croácia em 1945 quando o regime fascista do país foi esmagado e viveu tranquilamente na Argentina até junho de 1998, quando foi extradidato para a Croácia para ser julgado.
A mulher de Sakic, Nadia, que foi guarda em campos de concentração durante a Segunda Guerra, também foi julgada mas acabou sendo inocentada em 1998.





