Treze detentos são queimados em Pirajuí
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terça-feira, 09 de fevereiro de 1999
Jair Aceituno Especial para a AE 
Treze detentos da Penitenciária II de Pirajuí, interior de São Paulo, foram mortos na tarde de anteontem, no final do horário de visitas, queimados por colegas da cadeia. O motivo seria a recusa dos presos que trabalhavam na cozinha de entregar certos alimentos aos demais detentos, sem o pagamento feito com cigarros. Foram mortos Mário Antônio Molina, Widmar Paulo Moreira Sampaio, Alex Sandro da Silva, Reinaldo Dias Adão, Júlio César Cortezini, Ricardo Bonfim Albuquerque, Adriano Moreira de Carvalho, Leandro da Silva Pereira, Marcelo Machado, Cícero Donizeti Barbosa, Joelson dos Santos, Luciano Santana de Macena e Marcelo Alves Veiga. A maior parte era procedente de São Paulo. Ontem, o coordenador dos Estabelecimentos Penais do Estado, Lourival Gomes, esteve no presídio e determinou a adoção de medidas administrativas.
Alguns visitantes ainda estavam no interior do presídio quando tudo começou. Um parte dos presos passou da ala 2, para outra, a ala 3, e começou a agredir detentos com pedaços de paus, estiletes e outros objetos. Os mortos, que trabalhavam no setor de limpeza e na cozinha do presídio, foram acuados dentro de uma cela, onde apanharam mais. Em seguida, tiveram seus corpos envoltos em colchões com álcool, posteriormente incendiados.
O capelão anglicano Alfredo Mario Mingola, que esteve no presídio e no Instituto Médico Legal de Bauru, disse que as mortes ocorreram porque os 250 presos do raio 3 rebelaram-se contra os faxineiros e distribuidores de comida (boieiros, na linguagem do cárcere) que vinham se recusando a entregar-lhes as misturas, como o frango e a carne. Esses alimentos, segundo apurou o capelão, estariam sendo desviados e só entregues aos presos que dessem cigarros e outras coisas em troca. Essa situação já ocorria há alguns meses e por isso os presos revoltaram-se e promoveram o linchamento.
Relatório enviado ontem ao secretário da Administração Penitenciária, João Benedito de Azevedo Marques, revela, porém, que os faxineiros vinham molestando as mulheres, irmãs e filhas dos demais presos e, por isso, foram mortos.
Ontem à tarde, a família de Marcelo Machado, de São Paulo, que compareceu ao IML de Bauru protestava contra o Estado, que retirou os presos da capital e agora, com eles mortos, não os transporta de volta para a origem. Dos 852 detentos da Penitenciária II de Pirajuí, 800 vieram da Casa de Detenção de São Paulo, trazidos nos dez vôos especiais realizados pelo avião hércules da FAB especialmente adaptado para esse fim.
Os familiares dos presos mortos poderão pedir indenização ao Estado, caso seja comprovada a suposta omissão de funcionários durante a revolta. Para especialistas em direito ouvidos pela ontem, não importa que os detentos tenham sido mortos em uma briga entre eles, sem a aparente participação de agentes do Estado, como carcereiros ou policiais. Para o advogado Jairo Fonseca, do Conselho Estadual de Política Criminal de São Paulo, o Estado tem a custódia do preso, portanto, é o responsável por sua segurança.
Na manhã de ontem, Eduardo Inácio Neto, um preso da Penitenciária II de Bauru também morreu esfaqueado. Em outra briga, na mesma penitenciária, Emerson Alexandre de Paula também foi atacado com golpes de estilete, mas sobreviveu.


