Salvador, 19 (AE) - A intensidade da chuva diminuiu em Salvador, mas continua provocando estragos e mortes na região metropolitana. Hoje pela manhã quatro casas desabaram na cidade de Candeias, a 40 quilômetros da capital, matando três pessoas. No subúrbio ferroviário de Salvador as equipes de resgate encontraram mais um corpo nos escombros da Madeireira Azevedo Machado, aumentando para seis o número de mortes no local. Já são nove os óbitos provocados pela chuva nesta semana em Salvador.
Em Candeias dois deslizamentos, nos bairros Bela Vista e Getúlio Vargas, soterraram quatro casas, mataram três moradores e deixaram dois feridos. Até o início da tarde não haviam sido confirmadas as identidades das vítimas. O secretário de administração, Ivan Palma, disse haver mais de 200 famílias abrigadas no município e instaladas em escolas da prefeitura.
Motoboy - O corpo do motoboy Lázaro de Jesus dos Santos, de 21 anos, foi encontrado pelos bombeiros ontem (18) à noite, quando eles retiravam duas carretas jogadas contra as instalações da Madeireira Azevedo Machado no deslizamento de terra perto do Viaduto do Lobato, na noite de segunda-feira. A Avenida Suburbana, que liga vários bairros periféricos ao centro de Salvador, só será liberada quando os técnicos da Defesa Civil tiverem a certeza que não há mais risco de novo deslizamento sobre a pista. Há pelo menos 38 áreas de risco de deslizamento na capital baiana, onde moram mais de 40 mil pessoas.
Problema antigo - As construções desordenadas nas encostas de Salvador e as tragédias causadas pelos deslizamentos de terra não são problema recente, embora o problema tenha se agravado com o crescimento da cidade nos últimos 30 anos.
Praticamente desde a fundação da capital baiana, há 450 anos e ao longo dos séculos, há referências sobre o perigo das encostas. Um dos relatos mais interessantes sobre o assunto é o do professor de grego, historiador e escritor, o português Luís dos Santos Vilhena, que viveu na capital baiana no século 18.
Numa de suas famosas cartas ao amigo Filipono (consideradas as descrições mais completas sobre a vida de Salvador no período colonial), Vilhena mostra o problema e culpa os primeiros colonizadores: "É manifesto o descuido em que caíram os antigos, em deixar levantar edifícios onde cada um queria, sem nada atenderem ao futuro". Ele se refere principalmente às construções erguidas no topo e abaixo das encostas que circundam a capital baiana.
Vilhena acentua o fato da natureza ter feito uma muralha natural, propícia para a defesa da cidade, mas considera "funestas" as consequências de levantar "edifícios de peso enorme no cume da montanha". Num trecho chega a ironizar o fato dos acidentes não serem mais frequentes: "Parece evidente milagre da Providência o não-rolar dessas construções, visto que são feitas de tijolo, sobre delgados pilares, levantados em precipícios escarpados e sem terreno para segurança dos alicerçes".
O historiador relata vários desabamentos da sua época. Cita, por exemplo, o deslizamento de terra ocorrido em 1795 na montanha perto do Forte de São Francisco, que destruiu treze propriedades e matou um homem; e "a lamentável desgraça sucedida em 1º de julho de 1797", quando a muralha que a Irmandade dos Clérigos estava construíndo, rolou montanha abaixo
soterrando 15 casas, matando dezenas de moradores. Encerra o relato com uma frase que dá bem a idéia do pavor dos moradores de Salvador nos dias de chuvas. Embora escrita há 300 anos, não existe constatação mais atual: "Os baianos não receiam menos os estragos do inverno do que os napolitanos as erupções do Vesúvio".

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