''Não há nada acontecendo dentro da unidade que justifique essa manifestação do crime organizado, mas a ordem pode, sim, ter partido de dentro do presídio''. A afirmação é do diretor do Sindicato dos Agentes Penitenciários do Estado do Paraná (Sindarspen), Antonio Alves da Silva Filho, que comentou os ataques a ônibus em Londrina. Mesmo depois de uma megaoperação policial que prendeu nove suspeitos de terem incendiado dois ônibus em menos de 24 horas, a cidade registrou mais uma tentativa de incêndio a um carro da Transportes Coletivos Grande Londrina (TCGL) na noite de anteontem.
Amanhã, o sindicato encaminhará um ofício ao 5º Batalhão da Polícia Militar, pedindo reforço policial entre a Avenida Dez de Dezembro, na Região Central, e o Conjunto União da Vitória, na Zona Sul, onde está localizado o Centro de Detenção e Ressocialização (CDR). ''Os policiais já fizeram muito para elucidar o caso dos ônibus, mas não há garantias de que as pessoas certas foram presas'', opinou Silva Filho, reforçando que os agentes londrinenses ''trabalham o tempo todo sob ameaça e com medo''.
O diretor do Sindarspen não descarta a hipótese de que a ordem para os atentados tenham partido de dentro da unidade prisional, já que na semana passada o número de visitas foi atípico, em comemoração ao feriado da Páscoa. ''As ordens não saem por celular, mas podem sair por meio das visitas. Tem muito visitante que apesar de não ter passagem na polícia faz parte do crime organizado'', declarou Silva Filho, reiterando que o mutirão carcerário também contribuiu para a saída, mesmo que em regime semi-aberto, de dezenas de detentos do CDR, ''dois ou três ligados ao crime organizado''.
Ele lembrou que tempos atrás, a polícia encontrou, na casa da irmã de um dos presos da unidade, na Zona Sul, uma central telefônica do Primeiro Comando da Capita (PCC). ''Rola conversa entre os presos, por isso não descarto o envolvimento da facção nos atentados'', concluiu o diretor.
De acordo com o delegado-chefe da 10 Subdivisão Policial de Londrina, Sérgio Luiz Barroso, não há indícios de que os atentados tenham ligação alguma com o PCC ou qualquer outra facção criminosa. ''Estamos investigando para determinar a motivação, mas as ordens não teriam saído do CDR'', reafirmou o delegado.
Uma das hipóteses investigadas é que as ações seriam uma forma de pressionar o Poder Judiciário a agilizar benefícios de progressão de regime a presos do CDR, prisão onde estão pelo menos 26 presos ligados ao PCC, que age dentro e fora de presídios paulistas, paranaenses e de outros estados.
No caso dos dois primeiros ataques, os autores seriam os mesmos. Tanto que os mesmos bilhetes, que pediam o fim da ''opressão no CDR'', foram deixados nos dois coletivos atacados. Já o último ataque, registrado na noite de anteontem, não teria qualquer relação com os outros. ''Esta terceira ação não tem nenhuma relação com as outras. Foi mais uma imitação, praticada por um outro grupo de criminosos'', comentou o porta-voz do 5º Batalhão da Polícia Militar, tenente Ricardo Eguedis.
Na sexta-feira, uma operação policial realizada no Jardim União da Vitória resultou na prisão de nove pessoas. Um deles, um rapaz de 19 anos, seria o mentor intelectual dos ataques. Na casa do suspeito foram apreendidas uma metralhadora, drogas e cartas de uma namorada de um preso comentando os acontecimentos. Os policiais também apreenderam um celular contendo um vídeo onde apareceria um adolescente comemorando um dos ataques dentro de um coletivo.
Na manhã de ontem, a FOLHA tentou contato, pelo celular, com o diretor do CDR, major Raul Vidal, para repercutir as declarações do Sindarspen, mas ele não atendeu as chamadas.

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