Três filmes brasileiros participam de Cannes
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segunda-feira, 17 de abril de 2000
Por LUIZ CARLOS MERTEN (assinatura obrigatória) 
Cannes, 18 (AE) - Inimigos do cinema brasileiro, tremei: sempre dispostos a aviltar a produção cinematográfica do País, eles sofrem agora um sério revés. O Festival de Cannes, o mais importante do mundo, divulgou hoje (18) a seleção oficial da 53ª mostra, que ocorre em maio. Três filmes brasileiros participam do evento. Estorvo, de Ruy Guerra, baseado no livro de Chico Buarque de Hollanda, concorre à Palma de Ouro; Eu, Tu, Eles, de Andrucha Waddington, está na mostra Un Certain Regard; e a animação De Janela pro Cinema, de Quiá Rodrigues, concorre à Palma de Ouro do curta-metragem.
Todos estão eufóricos. Os discursos parecem ter sido preparados em conjunto. Avaliando a importância de se ter três filmes em Cannes, dois em competição, Ruy Guerra diz que isso confirma a vitalidade técnica e artística do cinema brasileiro atual e vem coroar uma década em que o cinema do País partiu do zero (a era Collor) para recomeçar de novo. No seu caso específico, ele já é um veterano de Cannes. Participou duas vezes da competição (a última, com Kuarup, em 1989), integrou várias vezes as mostras paralelas. "O bom é estar de volta com um filme que não segue a proposta do mainstream e busca alternativas de linguagem." Guerra observa que "ninguém inventa nada e, menos ainda, no cinema", mas destaca que a fuga à linguagem tradicional era uma contingência do próprio livro, que joga com o tempo, passado, presente e imaginação. "Tudo isso está no filme, numa linguagem aberta", diz o diretor.
Waddington também vê na participação brasileira em Cannes este ano um atestado de maturidade do cinema brasileiro. No caso dele, acha maravilhoso que, em seu segundo filme (o primeiro é Gêmeas, baseado em Nélson Rodrigues, em cartaz em SP), já esteja integrando a mostra oficial. Como ele faz questão de dizer, não se envergonha de Gêmeas, mas foi seu filme de aprendizado, seu vestibular de cinema. Tudo o que aprendeu com Gêmeas ele acredita ter colocado em prática, e bem, em Eu, Tu, Eles, com Regina Casé e Lima Duarte.
Quiá é outro que não cabe em si de contente. Demorou quatro anos para concluir De Janela pro Cinema, uma animação "artesanal", como define. O filme foi feito com pouco dinheiro e muito apoio, propondo, em 14 minutos, uma homenagem ao cinema por meio da citação a 60 filmes. "São cenas, personagens, objetos; um dos baratos do filme é que os cinéfilos ficam tentando identificar o quem é quem; é divertido e estimulante", explica. Para ele, mais que uma honra, ir a Cannes é a concretização de um sonho. Quiá aprendeu a fazer animação com Marcos Magalhães. Ele segue agora os passos do mestre, que já disputou (e ganhou) a Palma de Ouro dos curtas com Meow.
A seleção oficial, com os filmes concorrentes, aponta para um curioso mix: nove europeus, quatro americanos, nove asiáticos e do Oriente Médio e um íbero-americano. Veteranos do festival, como o dinamarquês Lars Von Trier, o inglês Ken Loach e o americano Joel Coen, vão competir com novos talentos, incluindo o mais jovem diretor que já concorreu à Palma, nestes 53 anos de festival - uma diretora. Von Trier concorre com Dancer in the Dark, seu novo filme com Catherine Deneuve e Bjork. Ken Loach, com seu filme rodado nos EUA, Bread and Roses. E Joel Coen, com O Brothers, Where Are Thou, com George Clooney e Holly Hunter.
A polêmica já está garantida por outro veterano de Cannes, o japonês Nagisa Oshima, que este ano concorre com Taboo, interpretado por Takeshi Kitano e que trata do homossexualismo entre samurais. A iraniana Samira Makhmalbaf, de 20 anos, é a mais jovem diretora a competir no festival. Ela concorre com Tkhaté Siah (O Último Filme).
A lista dos concorrentes ainda inclui: Nurse Betty, de Neil Labute, dos EUA, The Golden Bowl, de James Ivory, dos EUA/Inglaterra, Guizi Lai Le, de Jiang Wen, da China, Yi Yi, de Edward Yang, de Taiwan, Fast Food, Fast Woen, de Amos Kollek, e Kippur, de Amos Gitai, de Israel, La Noce, de Pavel Longuine, da Rússia, Trolosa, de Liv Ullman, e Sanger Fran Andra Waningen, de Roy Andersson, da Suécia, Eureka, de Aoyama Shinji, do Japão, Chunhyang, de Tim Kwon Taek, de Taiwan, Ohne Titel, de Wong Kar-wai, de Hong Kong, e quatro filmes franceses - Esther Kahn, de Arnaud Desplechin, Destins Sentimentaux, de Olivier Assayas, Harry, LAmi Qui Vous Veux du Bien, de Domick Moll, e Code Inconu, co-produção com a áustria, de Michael Haneke.
O filme de abertura é Vatel, de Roland Joffe, da Inglaterra, e o encerramento, Stardom, de Denys Arcand, do Canadá. O diretor francês Luc Besson, de O Quinto Elemento e Joana dArc, será o presidente do júri.


