São Paulo, 04 (AE) - O acordo alcançado há cerca de dez dias sobre as exportações brasileiras de calçados e papel atenua apenas uma parte do conflito comercial entre o Brasil e a Argentina, que ainda enfrentam problemas nos setores de têxteis, siderúrgico, automotivo e de laticínios, que representam 90% da pauta de exportações argentinas. Tanto calçados como papel não representam sequer 3% do comércio bilateral, razão pela qual fica difícil acreditar que a "briga comercial" entre os dois países acabou ou até mesmo esfriou.
"Se esses dois setores foram suficientes para desatar uma das maiores crises da história do Mercosul, o que podemos esperar daquelas áreas que até agora não ficaram resolvidas?", indagam alguns analistas do setor de comércio exterior. Esses especialistas acreditam que o conflito não acabou, já que os problemas nos outros setores são ainda mais preocupantes.
O próprio ministro Luis Felipe Lampreia reconheceu que essas questões são mesmo "espinhosas", embora o Brasil confie em uma solução, pelo menos no setor automotivo. "Vai ter de haver uma solução até dezembro", disse hoje o ministro na sua rápida passagem por São Paulo. Os regimes especiais automotivos que vigoram hoje no Brasil e na Argeirtna terão de mudar radicalmente e adequar-se ao que foi acertado na Organização Mundial do Comércio (OMC).
Na área têxtil, o problema também é sério, embora o governo brasileiro confie em uma vitória sobre a Argentina na OMC. "Temos plena certeza de que vamos conseguir derrubar os argumentos da Argentina e, no máximo, até o dia 18 o àrgão de Vigilância e Monitoramento de Têxteis da OMC deverá revogar a resolução que limita as exportações de têxteis brasileiros", acrescentou o ministro.
Lampreia explicou que a Argentina não tem fundamentos suficientes para aplicar salvaguardas permitidas pela OMC. Os argentinos, entretanto, vão defender sua posição, até porque não reduziram a quota do País, mas apenas a limitaram ao volume exportado pelo Brasil entre maio de 1998 e abril de 1999
Já na área siderúrgica a Argentina aplicou medidas antidumping para produtos laminados a quente, usados na fabricação de carros. Três siderúrgicas brasileiras, a CSN, Cosipa e Usiminas, estão tentando chegar a um acordo com a argentina Siderar para suspender a aplicação dessa medida, que deverá ser adotada nos próximos 30 dias. Espera-se para esta semana, ou no máximo para a próxima, um acordo que fixaria um preço mínimo para o aço brasileiro.
No final do mês passado, a Comissão Nacional de Comércio Exterior da Argentina (CNCE) informou que a importação de laminados a quente do Brasil estava prejudicando a indústria local, razão pela qual o governo argentino estava estudando o percentual de proteção que a Siderar precisaria para compensar as "perdas" provocadas pela "prática desleal de comércio".

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