Trechos da nova encíclica de João Paulo II
Reuters
O texto abaixo reúne trechos da mais recente encíclica do papa João Paulo II, Fides et Ratio (Fé e Razão), uma maratona filosófica de cerca de 150 páginas sobre a condição humana no fim do milênio.
Questões perenes: Basta um simples olhar pela história antiga para ver com toda a clareza como surgiram simultaneamente, em diversas partes da terra animadas por culturas diferentes, as questões fundamentais que caracterizam o percurso da existência humana: Quem sou eu? De onde venho e para onde vou? Porque existe o mal? O que é que existirá depois desta vida?
Desconfiança na verdade: Despontaram, não só em alguns filósofos mas no homem contemporâneo em geral, atitudes de desconfiança generalizada quanto aos grandes recursos cognitivos do ser humano. Com falsa modéstia, contentam-se com verdades parciais e provisórias, deixando de colocar perguntas radicais sobre o sentido e o fundamento último da vida humana.
Juventude: Este período, de mudanças rápidas e complexas, deixa sobretudo os jovens, a quem pertence e de quem depende o futuro, na sensação de estarem privados de pontos de referência autênticos.
Razão e fé: Não há motivo para existir concorrência entre a razão e a fé: uma implica a outra, e cada qual tem o seu espaço próprio de realização.
Niilismo: Seus seguidores defendem a pesquisa como fim em si mesma, sem esperança nem possibilidade alguma de alcançar a meta da verdade... O niilismo está na origem duma mentalidade difusa, segundo a qual não se deve assumir nenhum compromisso definitivo, porque tudo é fugaz e provisório.
A razão precisa da fé: Privada do contributo da Revelação, a razão percorreu sendas marginais com o risco de perder de vista a sua meta final.
A fé precisa da razão: Privada da razão, a fé pôs em maior evidência o sentimento e a experiência, correndo o risco de deixar de ser uma proposta universal. É ilusório pensar que, tendo pela frente uma razão débil, a fé goze de maior incidência; pelo contrário, cai no grave perigo de ser reduzida a um mito ou superstição.
Leitura literal da Bíblia: O biblismo tende a fazer da leitura da Sagrada Escritura, ou da sua exegese, o único referencial da verdade. Assim, acaba-se por identificar a palavra de Deus só com a Sagrada Escritura, anulando deste modo a doutrina da Igreja que o Concílio Ecumênico Vaticano II expressamente reafirmou.
Paixão pela verdade: A lição da história deste milênio testemunha que a estrada a seguir é esta: não perder a paixão pela verdade última, nem o anseio de pesquisa, unidos à audácia de descobrir novos percursos. É a fé que incita a razão a sair de qualquer isolamento e a abraçar de bom grado qualquer risco por tudo o que é belo, bom e verdadeiro.
Diálogo: Espera-se que teólogos e filósofos se deixem guiar unicamente pela autoridade da verdade, para que seja elaborada uma filosofia de harmonia com a palavra de Deus. Esta filosofia será o terreno de encontro entre as culturas e a fé cristã, o espaço de entendimento entre crentes e não crentes. Em toda a parte onde o homem descobre a presença dum apelo ao absoluto e ao transcendente, lá se abre uma fresta para a dimensão metafísica do real: na verdade, na beleza, nos valores morais, na pessoa do outro, no ser, em Deus.
Historicismo: O que era verdade numa época, afirma o historicista, pode já não sê-lo noutra. Em resumo, a história do pensamento, para ele, reduz-se a uma espécie de achado arqueológico... Ora, deve-se considerar que a verdade ou o erro nela expressos podem ser, não obstante a distância no espaço e no tempo, reconhecidos e avaliados como tais.
Cientificismo: Recusa-se a admitir como válidas formas de conhecimento distintas daquelas que são próprias das ciências positivas, relegando para o âmbito da pura imaginação tanto o conhecimento religioso e teológico, como o saber ético e estético... Na sua perspectiva, os valores são reduzidos a simples produtos da emotividade... Considera tudo o que se refere à questão do sentido da vida como fazendo parte do domínio do irracional ou da fantasia. Isto leva ao empobrecimento da reflexão humana, subtraindo-lhe aqueles problemas fundamentais que o animal rationale se tem colocado constantemente, desde o início da sua existência sobre a terra.
Pragmatismo: Atitude mental própria de quem, ao fazer as suas opções, exclui o recurso a reflexões abstratas ou a avaliações fundadas sobre princípios éticos.
Ilusão positivista: Uma certa mentalidade positivista continua a defender a ilusão de que, graças às conquistas científicas e técnicas, o homem, como se fosse um demiurgo, poderá chegar por si mesmo a garantir o domínio total do seu destino.
O caminho do Evangelho: Graças à mediação de uma filosofia que se tornou também verdadeira sabedoria, o homem contemporâneo chegará a reconhecer que será tanto mais homem quanto mais se abrir a Cristo, acreditando no Evangelho.
Colaboração: O filósofo cristão, sempre guiado naturalmente pela leitura superior que lhe vem da palavra de Deus, pode criar uma reflexão que seja compreensível e sensata mesmo para quem ainda não possua a verdade plena que a revelação divina manifesta. Este terreno comum de entendimento e diálogo é ainda mais importante hoje, se se pensa que os problemas mais urgentes da humanidade - como o problema ecológico, o problema da paz ou da convivência das raças e das culturas - podem ter solução à luz duma colaboração clara e honesta dos cristãos com os fiéis doutras religiões e com todos os que, mesmo não aderindo a qualquer crença religiosa, buscam a renovação da humanidade.
Cientistas: Sinto o dever de exortá-los a prosseguir nos seus esforços, permanecendo sempre naquele horizonte sapiencial onde aos resultados científicos e tecnológicos se unem os valores filosóficos e éticos, que são manifestação característica e imprescindível da pessoa humana.





