Buenos Aires, 09 (AE) - "We want to work!" (Nós queremos trabalhar!). O príncipe Charles de Windsor, herdeiro do trono britânico, já ouviu esse pedido nas áreas mais economicamente deprimidas de seu reino, mas nunca imaginou que o escutaria provindo de um insólito público: setenta e sete travestis e prostitutas, que se aglomeravam diante da Embaixada da Grã-Bretanha em Buenos Aires, com faixas e cartazes escritos nos dois idiomas: o do visitante inglês e do nativo castelhano.
A multidão de trabalhadores do sexo aproveitou a visita do príncipe Charles para um peculiar pedido de asilo político: desde segunda-feira, a prostituição está proibida na capital argentina, e por esse motivo, consideram-se perseguidos e pretendem continuar seu trabalho em outras terras.
"Neste país nada nos garante nossa integridade física, e por isso pedimos proteção de um país civilizado" afirmou Valéria, um travesti de 26 anos, enquanto pendurava um dos cartazes de "Asylum, please!" (Asilo, por favor!) no histórico Monumento aos Espanhóis na frente da Embaixada britânica.
Segundo as lideranças do grupo, 80 travestis foram assassinados no país nos últimos dois anos. A polícia, que de manhã havia permitido a manifestação, à tarde reagiu com violência ao grupo que pedia o asilo. Além dos feridos pelas pancadas de cassetete, um jovem travesti teve que ser internado com urgência. O motivo: durante a rusga com as forças de segurança, um de seus implantes de silicone explodiu.
A menos de um quilômetro dali, o príncipe Charles começava sua visita de três dias à Argentina. O príncipe, por questões de sua limitação de poder, praticamente não pode fazer pronunciamentos de destaque, reservando-se à declarações de caráter neutro.
Na praça San Martin, onde colocou uma coroa de flores em homenagem ao herói da independência argentina, o general José de San Martín, o herdeiro do trono fez um breve discurso afirmando que "inegavelmente, as relações entre a Argentina e a Grã-Bretanha em cultura e economia, esportes e outros setores, estão melhorando". Após essa cerimônia, Charles de Windsor partiu para uma reunião com o presidente Carlos Menem, na Casa Rosada.
Ao contrário das prostitutas e travestis, as diversas associações de veteranos das Malvinas preferiram estabelecer um contato amigável com aqueles que eram seus ferrenhos inimigos até há poucos anos: os principais líderes dos veteranos argentinos cumprimentaram o príncipe após a cerimônia no monumento aos mortos. O único esboço de reação foi um pedido feito no dia anterior para que a população da cidade colocasse bandeiras argentinas nas janelas como forma de reafirmação da soberania perdida no árido arquipélago do Atlântico Sul.
No entanto, o pedido não teve efeitos sobre os portenhos, que tampouco prestaram atenção à chegada do herdeiro do trono, ao contrário do rebuliço que a falecida princesa Diana havia causado anos atrás. O único comentário generalizado sobre Charles era pouco elogioso: a visita do príncipe, com uma agenda carregada na área central da cidade, fez entrar em colapso o sistema de trânsito, já que as principais avenidas da cidade foram bloqueadas por questões de segurança.

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