Os primeiros afirmam que o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) é subdiagnosticado e muitas crianças sofrem danos terríveis em sua vida escolar e social por falta de tratamento (com remédios). Os outros alertam para uma explosão de diagnósticos de TDAH nos últimos dois anos, com prescrição indiscriminada de estimulantes como aposta numa solução mágica para as crianças que têm dificuldade de se concentrar em suas atividades.
''Do ponto de vista da saúde pública, o subdiagnóstico de TDAH é muito mais grave que o número de pessoas tomando medicação indevidamente. Como se diz, o abuso não invalida o uso'', diz o psiquiatra Paulo Mattos, professor da UFRJ e vice-presidente da Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA).
''O TDAH é um dos representantes de uma tendência da cultura contemporânea de tentar usar o discurso da biologia para explicar comportamentos de todo tipo. Crianças que antes eram chamadas de peraltas, desatentas, avoadas, desorganizadas estão paulatinamente sendo transferidas para uma categoria diagnóstica de TDAH'', opina o psiquiatra Rossano Cabral Lima, mestre em Saúde Coletiva com dissertação sobre o tema.
Os pais de Vinícius André Sayão de Moraes, de 11 anos, sempre souberam que o filho se comportava de maneira diferente das outras crianças: não andava, pulava; acordava à noite aos prantos com frequência; falava pelos cotovelos e na terceira série começou a tirar notas ruins. Passou a se tratar com a neuropediatra Lais de Carvalho Pires: o boletim melhorou, o sono é mais tranquilo, mas é um tagarelinha. Se desacelerou os passos? Não, continua a andar pulando, só que agora ao lado de seu novo companheiro, um cão fox paulistinha.
''Eles são iguais'', diz a mãe, Rosely Sayão, que trabalha como secretária e, junto com o marido, é uma das mais atuantes nos grupos de apoio à família do hiperativo. ''Meu filho sofre porque é muito imaturo. Sabe que é diferente dos amigos e se sente sozinho. O cachorro ameniza um pouco a solidão.''
Para a médica Lais, o caso de Vinícius é representativo de um universo específico, que segundo as estimativas da Organização Mundial de Saúde representa cerca de 5% da população: as pessoas com TDAH, diagnosticadas corretamente por especialistas. O que a neuropediatra critica enfaticamente é o boom de diagnósticos de hiperatividade, tachando de hiperativos todos os filhos ou alunos mais agitados, rebeldes, estressados: ''É muito mais fácil rotular e dar remédio do que a família toda rever seu comportamento ou a escola avaliar as suas falhas, os professores perceberem que suas aulas são entediantes.''

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