Transporte rodoviário é essencial ao País
Cleide Silva
Agência Estado
De São Paulo
Cerca de 60% das cargas brasileiras são transportadas por caminhões. A dependência desse sistema é exagerada para um país com as dimensões do Brasil, avalia o diretor do Centro de Estudos em Logísticas do Instituto de Pós-Graduação em Administração (Coppead) da Universidade do Rio de Janeiro, Paulo Fernando Fleury. Nos Estados Unidos, segundo ele, a participação das rodovias no transporte de cargas é de 23%. Pelas ferrovias, circulam entre 38% e 40% das cargas, sistema que responde por apenas 23% da circulação de produtos no País. O restante é feito por hidrovia. Essa dependência é ruim porque o custo do transporte rodoviário é o dobro do ferroviário, diz Fleury.
Segundo ele, cada mil toneladas transportadas no País por estradas custa US$ 32,00 ante US$ 17,00 por trens. O sistema mais barato, o hidroviário (custa cerca de US$ 9,00 por mil toneladas) só agora começa a ser melhor desenvolvido. O custo do transporte ferroviário no Brasil é praticamente igual ao dos Estados Unidos. No rodoviário, a diferença é grande: custa US$ 56 nos EUA. Aqui o sistema é ineficiente, afirma Fleury.
O presidente da Associação Nacional do Transporte de Cargas (NTC), Romeu Nerci Luft, discorda dessa análise. É uma distorção dizer que o Brasil é um país rodoviário, diz. Segundo ele, o percentual de cargas manufaturadas (não inclui grãos e minérios) transportadas por caminhões não está longe dos padrões de países como França, Canadá e EUA, que ficam entre 70% a 90%.
Para Luft, a distorção maior está na falta de rodovias e nas condições das estradas. Ele lembra que a malha rodoviária brasileira tem 1,657 milhão de quilômetros, dos quais apenas 148 mil são asfaltados. Ressalta ainda que o setor emprega 3,5 milhões de pessoas e investe R$ 10 bilhões por ano.
O professor Fleury analisa que, por ser fragmentado e desregulamentado, o transporte rodoviário tem alto grau de ineficiência. Ele cita, por exemplo, que os motoristas têm jornada excessiva de trabalho, o que provoca acidentes; o diesel usado nos caminhões é poluente, a frota de veículos é velha e há uma guerra de preços que deturpa o mercado.
Para ele, a matriz do transporte no País deveria ser de 45% para o sistema ferroviário, 35% para o rodoviário e 20% para o hidroviário. Fleury defende que as cargas transportadas por estradas se concentrem nas pequenas distâncias, de mais alto valor. A concentração do transporte rodoviário pode provocar problemas como o da semana passada, quando um movimento inicialmente desacreditado quase provocou um caos no abastecimento de vários produtos.





