São Paulo, 19 (AE) - O crime que mais cresce no Estado de São Paulo, o roubo de cargas, é responsável hoje por perdas de 10% a 12% do faturamento bruto das transportadoras. Em 1991, esse índice era inferior a 3%. Além de um inevitável repasse no custo dos fretes - não calculado pelo setor -, o roubo acabou causando o fechamento de muitas companhias, segundo o Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas de São Paulo e Região (Setecesp). Para tentar evitar o crime, as transportadoras armam estratégias e investem cada vez mais em tecnologia.
Segundo o secretário de Segurança Pública, Marco Vinício Petrelluzzi, o roubo de cargas é a atividade na qual o crime organizado mais age, atualmente. De janeiro a abril, foram praticados 615 assaltos, 62% mais que no ano passado, quando ocorreram 379, no mesmo período. A maioria deles na capital. Ao crime organizado o delegado Benedito Costa Pimentel, diretor da Divisão de Investigações Sobre Furtos e Roubos de Veículos e Cargas (Divecar), que chefia na capital o combate a esse tipo de ladrão, credita 60% do total de roubo de cargas no Estado. Nos outros 40%, segundo ele, há a conivência dos motoristas dos caminhões.
Nos últimos três meses, os policiais chefiados por Pimentel prenderam 101 ladrões de cargas e 61 receptadores (pessoas acusadas da compra de mercadorias). Entre os presos, 29 estão condenados pelo mesmo crime. A polícia recuperou cargas avaliadas em R$ 17 milhões e muitos caminhões. As cargas mais roubadas são de remédios, cigarros, eletrodomésticos, equipamentos eletrônicos, alimentos, limpeza, confecções, autopeças e produtos agrícolas.
O delegado tem realizado blitze na companhia de fiscais da Secretaria da Fazenda do Estado, que estão descobrindo notas fiscais frias usadas por empresas para "esquentar" as mercadorias roubadas. As seguradoras, em 1998, pagaram cerca de R$ 200 milhões às transportadoras e às empresas vítimas dos ladrões de cargas. O grande volume de roubos e a falta de estrutura da polícia têm provocado a fuga das seguradoras desse mercado. Das cem empresas do setor no País, somente cinco fazem a apólice da carteira de cargas. Firmas - Os criminosos montaram empresas voltadas exclusivamente para o roubo e o desvio de cargas. São chamadas pela polícia de "firmas de ladrões". Os grupos conseguem, em pouco tempo, mandar as mercadorias roubadas para outros Estados. "Com o passar dos anos, eles estão aperfeiçoando o esquema dos roubos e da venda das mercadorias e têm dificultado o nosso trabalho", afirmou o delegado Frederico Vesentini.
Um dos chefes da equipe responsável pelo combate aos ladrões de cargas na capital, Vesentini calcula que haja na Grande São Paulo mais de 5 mil depósitos e galpões utilizados pelo crime organizado da carga. Ele critica as imobiliárias, que não se preocupam em saber quem está alugando os imóveis. "Ao apurar, ficamos sabendo que os documentos de identidade e de informações usados são falsos e isso atrapalha nosso trabalho". Frágil - O assessor de Segurança da Federação e do Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas de São Paulo e Região, coronel da reserva do Exército Paulo Roberto de Souza, afirma que a estrutura da polícia para impedir os ladrões de cargas é frágil e está "aquém das necessidades". A delegacia especializada em identificar e prender as quadrilhas e os receptadores de cargas tem apenas 3 delegados e 28 investigadores. Os meios materiais para o trabalho também são precários: faltam carros, rádios de comunicação, telefones e computadores.
Os policiais queixam-se, ainda, da falta de colaboração efetiva das Polícias Rodoviária Estadual e Federal. Mas a maior reclamação é quanto ao fato de os fabricantes não identificarem os produtos na nota fiscal. "Quando apreendemos uma carga nos depósitos dos receptadores, pedimos informação ao fabricante e ele sempre alega não saber para quem vendeu", diz Vesentini. "Assim fica difícil continuar a apuração".

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