Transportadora contrata refugiados venezuelanos
Grupo de motoristas que está em Maringá passa por treinamento e frequenta aulas sobre cultura brasileira
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 15 de julho de 2019
Grupo de motoristas que está em Maringá passa por treinamento e frequenta aulas sobre cultura brasileira
Isabela Fleischmann - Grupo Folha 
Venezuelanos que chegaram a Maringá (Noroeste) no dia 9 de julho estão passando por fase de adaptação para começar a trabalhar. Trazidos em um avião da FAB (Força Aérea Brasileira), 37 refugiados vão atuar em uma transportadora da cidade. São 36 motoristas atualmente em treinamento. Um venezuelano atuará na parte administrativa como coordenador do setor. Coube à empresa a parte burocrática, além de oferecer aulas de português e palestras para aprendizado da cultura brasileira para os venezuelanos.

As aulas práticas com caminhões devem durar até setembro, só a partir de então eles começarão a trabalhar com o transporte, acompanhados de outro motorista brasileiro, em um primeiro momento. Os colaboradores também terão aula de espanhol, como explica o gerente de recursos humanos da transportadora, Jean Salgals.
A empresa comprou cinco contêineres para alojamento dos venezuelanos. Lá, no espaço da transportadora, eles se dividem em beliches. São pequenas estruturas com uma janela, ar-condicionado e um armário. Os banheiros ficam no prédio da transportadora. Segundo Salgals, um novo contêiner será adquirido. Em cada um, ficam seis venezuelanos. "O próprio Exército indica contêineres. Eles ficavam em contêineres em Roraima, mas era pior, era longe de hospital", explicou. "Foi a melhor infraestrutura, já que não daria para alugar casa ou chácara para 40 pessoas e o valor de hotel seria altíssimo." Os venezuelanos também são levados para conhecer a cidade e para a igreja aos domingos.
Para a seleção dos trabalhadores, o Exército fez uma triagem de 130 currículos. Depois, a empresa realizou entrevistas e testes. Todos os contratados têm experiência equivalente como motorista de caminhão na Venezuela. Agora, eles já estão com documentos acertados com a transportadora. "É importante porque não só completa o quadro de funcionários, mas é uma experiência humanitária única."
Adalberto Antonio Miguel, 31, estava havia dois meses em Roraima. Na fronteira, ele passou dificuldades. “Muito frio, calor, fome. Mas tudo com um propósito. Saí do meu país buscando novos horizontes e oportunidade.” Com olhos marejados, contou que a família ficou na Venezuela. “Não creio até o momento que vou voltar, meu plano é trazer minha família. Quero que minha família fique aqui comigo. Meu filho, minha esposa, meus pais.”
Como caminhoneiro na Venezuela, ele já não conseguia trabalhar. “Faltava bateria, pneu. Há muito desemprego lá, não tem possibilidade.” Mesmo dividindo um pequeno espaço em um contêiner longe da família, Miguel disse que está grato pela oportunidade. “Gosto daqui. É a primeira vez na minha vida que conheço pessoas tão amáveis, pessoas que têm valores que se perderam na Venezuela. Eu gostaria que na Venezuela se recuperassem todos os valores que os irmãos do Brasil têm, porque são importantes para conviver, são humanitários, pessoas que têm sentimento. Por isso que aqui tem futuro, por isso que o Brasil é tão grande, por conta das pessoas daqui.”
Jesus Antonio, 46, ficou por cinco meses em Boa Vista (RR) antes de ser selecionado no processo de interiorização. “Aqui tem muita atenção, confiança e apoio. Estão nos dando logística e preparo para sermos operadores”. Com a esposa e três filhos no país em crise, Antonio começou a trabalhar para poder buscar a família. “Em Boa Vista, com o trabalho, o pouco que eu ganhava, mandava para a Venezuela. Já aqui posso ter um trabalho digno, de responsabilidade, já posso mandar algo mais decente para a família. A ideia é que eles venham e tenham o benefício que tenho aqui, como trabalhador e pessoa”, contou.
O venezuelano atribuiu à má administração e ao egoísmo de governantes a situação do país. “Agradeço muito ao Brasil e vou dar o melhor de mim, colocar meu conhecimento e experiência em prática para fazer o melhor trabalho, é meu segundo país, tem me dado abrigo e apoio.”


