Em tempos de tecnologia genética avançada, em que a discussão maior gira em torno da clonagem e utilização de células-tronco, uma técnica que vem sendo utilizada há 40 anos tem trazido ótimos resultados para pacientes com problemas de cardiopatia congênita e outros problemas do coração adquiridos com o tempo.
  Trata-se da ‘‘Cirurgia de Ross’’, transplante de válvulas cardíacas (aórtica e pulmonar) desenvolvido por Donald Ross em 1967. Segundo o cirurgião Gualter Sebastião Pinheiro Júnior, essa técnica apresenta baixo índice de complicações a curto prazo, maior durabilidade e melhor adaptação ao organismo. Apesar disso, o recurso não era muito utilizado inicialmente porque na época os médicos não dispunham de tecnologias que conservassem as válvulas por muito tempo. Ou seja, só era possível realizar o transplante ‘‘a fresco’’.
  Atualmente, novos recursos tecnológicos possibilitaram a retirada e conservação das válvulas inclusive de corações que já pararam de bater – desde que em um período determinado de tempo. Isso tem contribuído para um aumento no número de doações. Só na cidade de Londrina já foram doados ao banco de válvulas de Curitiba cerca de 140 válvulas desde agosto de 1997.
  Esse banco, único credenciado pelo Ministério da Saúde no estado, já enviou material para 952 transplantes desde 1996. Na Santa Casa e no Hospital Infantil de Londrina (os únicos hospitais da cidade credenciados para o procedimento), em cinco anos foram realizadas 30 cirurgias desse tipo, sendo cinco só no ano passado.
  Para o transplante, o médico faz uma solicitação detalhada e envia ao banco de válvulas, que fornece uma lista com as opções disponíveis. Às vezes, é preciso recorrer a outros bancos de válvulas, ocasião na qual pode ser feita permuta entre bancos – tudo em nome da boa saúde do paciente.
  A grande vantagem de se utilizar válvulas humanas é o baixo índice de reação do organismo, que contribui inclusive para uma recuperação mais rápida. ‘‘Sempre que é inserido um tecido celular no organismo, este dá uma resposta imune. No caso dos transplantes, essa resposta é muito baixa, algumas vezes até difícil de se perceber. Não presenciei até agora nenhum caso em que a rejeição prejudicasse o tratamento’’, declara o médico. Os riscos dessa cirurgia são os mesmos de uma cirurgia comum.
  Pinheiro Júnior conta que uma forma de aumentar a eficácia deste tratamento é fazer o chamado ‘‘autotransplante’’: a válvula pulmonar sadia do próprio paciente é retirada e colocada no lugar da válvula aórtica. ‘‘Isso aumenta a eficácia da cirurgia, já que o organismo não vai estranhar o novo tecido’’, justifica. No lugar deixado pela válvula pulmonar, é implantada uma outra válvula ou prótese.
  De acordo com o médico, esse procedimento é mais vantajoso do que simplesmente substituir a válvula aórtica porque esta precisa suportar maior pressão que a pulmonar, oferecendo mais riscos ao organismo – por isso o seu bom funcionamento é priorizado.

mockup