Transplante facial ainda demora para acontecer
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domingo, 01 de dezembro de 2002
Henrique Skujis<br> Agência Estado 
São Paulo - Tudo indica que foi alarme falso. Na quarta-feira passada, Peter Butler, médico do Hospital Royal Free, de Londres, espantou a comunidade médica e os potenciais pacientes ao garantir que não há mais obstáculos técnicos para a realização de um transplante facial completo.
Apesar da empolgação causada pelo anúncio de Butler, parece que a delicada cirurgia, que demoraria pelo menos dez horas, continuará existindo apenas no mundo da ficção. ''Naquele filme, o John Travolta não troca de cara com o Nicholas Cage?'', perguntou a bancária Sueli Osmir, ao ser questionada sobre quem gostaria de ser se pudesse escolher o rosto de alguém.
A notícia realmente fez lembrar do filme ''A Outra Face'' (1997), no qual o bandido (Cage) passa por uma minuciosa operação a laser e recebe o rosto do policial (Travolta) que o persegue. ''Gostaria muito que isso já fosse possível, mas o transplante facial ainda deve demorar muito para acontecer. Houve precipitação no anúncio'', lamentou Carlos Fontana, especialista em cirurgia plástica do Hospital Albert Einstein.
Rolf Gemperli, professor de cirurgia plástica na Faculdade de Medicina da USP, explica que tal operação envolve o transplante da pele, da gordura subcutânea, dos músculos, das cartilagens, das veias e até dos nervos da face do doador. ''Hoje, não é possível sequer transplantar uma orelha. A chance de rejeição é enorme'', diz.
Contra essa rejeição, o paciente seria obrigado a receber imunossupressor pelo resto da vida. ''Isso acabaria com o sistema imunológico. Ele ficaria suscetível a uma infinidade de infecções e doenças'', diagnostica Gemperli.
O médico cita o exemplo de um transplante de mão feito na França recentemente. ''A cirurgia foi um sucesso, mas depois o paciente desenvolveu um câncer'', recorda. ''E olha que as mãos são muito menos complexas que a face. Com muito menos músculos, por exemplo.''
As experiências feitas com cobaias também não são das mais animadoras. José Antônio Veloso Bastos, médico do Hospital dos Defeitos da Face, conta que os macacos submetidos a transplantes tiveram de ser sacrificados.
''A grosso modo, quanto mais externo é o órgão transplantado, maior a probalidade de rejeição'', explica Bastos. ''No caso da pele, um órgão de proteção, o mais externo do corpo, a situação é a mais grave. Apenas gêmeos idênticos não teriam problemas.'' Na previsão dos especialistas brasileiros, as pessoas com o rosto desfigurado ainda precisarão esperar pelo menos dez anos (e não seis meses, como previu Butler) para ir à mesa de cirurgia.
E, claro, não bastará anular os empecilhos técnicos para os potenciais pacientes fazerem fila na porta do hospital. Antes de mais nada, será preciso discutir os entraves éticos da nova cirurgia. ''O debate ético e moral obviamente terá de acontecer antes do primeiro transplante facial'', pede o próprio Butler. ''Afinal, trata-se da expressão e, consequentemente, da emoção das pessoas.''


