O medo de perder o rim transplantado por falta de medicamentos levou cerca de 40 pacientes renais crônicos ao gabinete do secretário Estadual de Saúde do Rio, Gilson Cantarino, na manhã de ontem. Desde novembro, o remédio Sandimun, que evita a rejeição do novo órgão, está sendo racionado. O laboratório Novartis, que detém o monopólio da distribuição no Rio, suspendeu a remessa por causa de uma dívida do governo do Estado de cerca de R$ 1 milhão.
Os pacientes passaram a madrugada em frente à farmácia estadual, na Rua Moncorvo Filho, centro da cidade, à espera da distribuição dos remédios, conforme havia sido prometido pela assessora de Cantarino, Deise Sanchez. Ontem, por volta das oito horas da manhã, eles foram avisados de que não havia Sandimun para entrega. Revoltados, os transplantados pararam um ônibus e seguiram para a Secretaria Estadual de Saúde. Uma comissão foi recebida pelo subsecretário Leôncio Feitosa. ‘‘Estamos numa luta contra o capitalismo selvagem’’, disse o subsecretário.
Segundo Feitosa, a dívida com o laboratório foi parcelada em quatro vezes. ‘‘Eles receberam a primeira parcela de R$ 250 mil e fizeram uma remessa, com pagamento à vista, suficiente para 15 dias; agora exigem o adiantamento da segunda parcela’’. O governo do Estado e o Novartis estão negociando. Enquanto isso, 800 transplantados no Estado correm o risco de ter o órgão recebido rejeitado pelo próprio organismo.
O aposentado Adaíl Pontes, de 54 anos, que recebeu o rim há um ano, era um dos mais abatidos. Ele está sem tomar o Sandimun desde quarta-feira da semana passada. ‘‘Fiz dois anos de hemodiálise, três cirurgias para não perder este rim e fiquei com sequelas na perna por causa das anestesias’’, contava. ‘‘Meu irmão não pode ter doado o rim dele em vão’’.
A servente Maria do Socorro Rego, de 41 anos, chegou às 21 horas de terça-feira na Rua Moncorvo Filho. O salário de R$ 180,00 não é suficiente para pagar a medicação do filho, transplantado aos 20 anos, orçada em R$ 1 mil. ‘‘Por mim eu não ficava nessa luta, meu desespero é pela vida do meu filho’’, afirmou. O rapaz está há quatro dias sem medicamento.
A farmácia da Secretaria Estadual de Saúde tem em seu estoque pequena quantidade do remédio Ciclosporina Biossintética que tem o mesmo fim do Sandimun, mas não é indicado pelos médicos por ser menos eficaz que o medicamento em falta e por ser de difícil absorção pelo organismo dos transplantados. ‘‘Os médicos paulistas já adotaram a Ciclosporina, não entendo a relutância dos cariocas’’, queixou-se Feitosa.

mockup