A transmissão de energia elétrica no Brasil está enfrentando um problema estrutural, provocado pela falta de investimentos e pela histórica preferência estatal por megalomaníacos projetos de geração de energia.
A despeito dos problemas que podem ser provocados por fenômenos naturais - como o raio que atingiu a subestação de Bauru (SP) na última quinta-feira e gerou um blecaute em dez Estados e no Distrito Federal, segundo o Ministério da Energia -, a transmissão de energia no Brasil causa preocupação nas autoridades públicas e privadas ligadas ao setor.
‘‘Vivemos um equilíbrio instável’’, disse à reportagem o ministro Rodolpho Tourinho (Minas e Energia), na noite de anteontem. ‘‘O sistema seria mais confiável se fossem feitos mais investimentos em transmissão’’, reconhece o diretor-geral da entidade privada ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), Mário Santos, responsável pela gestão do setor elétrico no Brasil.
Os números de investimento reforçam a preocupação do governo e do ONS. A Eletrobrás, holding estatal do setor elétrico, deveria ter investido R$ 3,6 bilhões no ano passado (em transmissão, geração e distribuição). Mas a política de contenção de gastos determinada pela equipe econômica permitiu que a estatal investisse R$ 2,8 bilhões em 1998 (uma redução de 22% em relação à previsão inicial).
Até 2001, o Ministério das Minas e Energia estima que serão necessários R$ 30 bilhões em investimentos para garantir uma maior tranquilidade no setor elétrico. O ministro Rodolpho Tourinho admite que a União não tem essa capacidade de investimento. ‘‘Não temos esse dinheiro’’, afirma o ministro.
De acordo com os planos da Eletrobrás, os investimentos específicos na área de transmissão estão estimados em R$ 6,1 bilhões - ou um quinto da situação ideal imaginada pelo Ministério das Minas e Energia.
Mário Santos, do ONS, lembra que o governo sempre preferiu investir em chamativos projetos de geração de energia, o que fez o Brasil ter hoje as usinas hidrelétricas de Itaipu (a maior capacidade de produção do mundo) e Serra da Mesa (cujo lago possui o maior volume de água de todo o mundo).
‘‘A transmissão nunca foi priorizada porque o governo entendia que essa atividade não era rentável, mas uma decorrência das unidades de geração’’, avalia Santos, que antes de dirigir o ONS era vice-presidente da Eletrobrás. Para ele, esse entendimento do governo irá mudar com a privatização da estatal, que está sendo desmembrada em unidades geradoras e transmissoras - apenas as geradoras serão vendidas em um primeiro momento.
‘‘Com a cisão da Eletrobrás, o governo está vendo que a transmissão é uma atividade rentável como as demais, pois as novas empresas que estão sendo criadas demonstram que é possível obter uma boa receita com a transmissão de energia’’, diz o diretor do ONS.
A inevitável carência de recursos por parte da União está reforçando a idéia de privatizar a malha de transmissão, o que não está previsto no modelo de desestatização do setor elétrico inicialmente desenhado pelo governo.
O ministro Rodolpho Tourinho é um entusiasta dessa idéia. ‘‘O sistema de transmissão deve ser privatizado, pois o governo não tem dinheiro para investir no serviço e não vai ter condições de bancar as expansões necessárias’’, afirmou.

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