O pacto de ''felizes para sempre'' costuma deixar de fora o uso da camisinha. Quando a relação passa para a categoria estável, a ausência do debate sobre a proteção sexual abre as portas às doenças. O alarde de que os casais não estão imunes ao problema vem com o levantamento feito pelo Centro de Referência Estadual de DST/Aids, divulgado recentemente. Com base nas 4,4 mil ligações feitas no último ano ao Disque-Aids (serviço telefônico de informações sobre a doença) foi identificado que um em cada três homens que aciona o número é casado.
Apesar de a maioria das ligações partir de solteiros, a parcela que se declarou monogâmica chama atenção: além dos casados, 41,6% afirma ter parceira fixa. ''Não foi realizada uma conclusão científica, mas os dados nos permitem a interpretação de que são homens, que tiveram relação extraconjugal, e estão com receio de ter sido infectados pelo vírus HIV'', afirma a diretora de prevenção do Centro, Elvira Filipe. É fato que a principal dúvida no Disque foi sobre os locais disponíveis para realizar testes da doença.
Os dados sobre a incidência de Aids em mulheres com relacionamento estável colocam em xeque a ilusão de que o casamento previne o HIV. Em sua tese de doutorado, defendida na Faculdade de Saúde Pública de São Paulo, a médica Naila Santos identificou que 50% das pacientes soropositivas tinham parceiro único no momento da infecção e 40% eram casadas (foram 2.500 entrevistas). ''O preservativo ainda é visto como um termômetro de confiança. Depois que as relações ficam estáveis, em três meses no geral, as pessoas acreditam que é hora de abandonar a camisinha''.
Segundo Naila, o imaginário popular não coloca as mulheres compromissadas no grupo de risco. ''Continua muito associado à prostitutas ou usuários de drogas'', diz.
Uma outra sequela de não encarar que elas estão suscetíveis ao risco é apontada pelos atendimentos feitos no ambulatório de Aids da Unicamp. ''Elas não fazem exame de rotina. Por semana, recebemos, em média, três pacientes grávidas, que só descobrem a Aids no pré-natal'', fala a chefe de assistência social Aparecida do Carmo Campos.

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