Transexuais submetem-se a cirurgias para mudança de sexo em Curitiba
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quinta-feira, 23 de setembro de 1999
Por Evandro Fadel 
Curitiba, 24 (AE) - Uma transexual vai submeter-se amanhã (25) a uma cirurgia de neofaloplastia para redefinição de sexo. A intervenção é considerada pioneira no Brasil. Outros três transexuais masculinos também estão realizando cirurgias de neovaginoplastia neste fim de semana, operação já realizada com sucesso no País. As cirurgias têm caráter acadêmico e fazem parte de um programa da Clínica de Sexualidade, órgão de extensão da Universidade Tuiuti, de Curitiba.
De acordo com a coordenadora da clínica, Regina Mara Teixeira, as quatro pessoas foram selecionadas e acompanhadas por dois anos em um grupo de 26 pacientes, dos quais 23 são homens e três, mulheres. "A cirurgia não é realizada se eu não der o laudo positivo", explicou a psicóloga e sexóloga. "Existe uma repugnância permanente dessa parte do corpo; é como se fosse uma coisa que não pertence à pessoa e os efeitos psicológicos pela rejeição são muito sérios", afirmou. "A cirurgia vai adequar o corpo ao psicológico, à identidade sexual dessas pessoas". Casos - M., a paciente que tinha genitália feminina, será submetida amanhã à última de uma série de cirurgias. Ela já recebeu um pênis confeccionado com uma alça de gordura do abdome e testículos feitos da pele dos grandes lábios. O procedimento de amanhã é para a colocação do canal da uretra. De acordo com a psicóloga, a função sexual somente será possível com a colocação de uma prótese.
Aprovadas pelo Conselho Federal de Medicina, mediante alguns critérios, entre eles não usar drogas, nem ter sido casado heterosexualmente, as cirurgias de redefinição sexual de homens que se tornam mulheres possibilitam resposta orgásmica a partir do terceiro mês. Mas ainda persiste a dificuldade para obtenção de nova Carteira de Identidade, discussão que tem sido travada no Congresso Nacional. Os que estão se submetendo às cirurgias em Curitiba têm entre 26 e 46 anos de idade. Rejeição - Edna diz ter descoberto, quando tinha entre 4 e 5 anos de idade, que tinha identidade sexual de mulher, apesar de possuir pênis. Aos 6 anos, foi pela primeira vez à escola, com cabelos compridos e sentindo-se mulher. A mãe colocou-a na fila dos meninos. Mas a professora queria que ela estivesse no lado das meninas e somente descobriu que se tratava de um homem quando fez a chamada. "Foi muito constrangedor", diz Edna.
Ela é uma das que se submeterão amanhã à cirurgia de neovaginoplastia, com reaproveitamento do tecido do pênis para a formação do canal vaginal. Vivendo há três com um homem, ela até hoje não teve coragem de se mostrar inteira a ele, apesar de sempre ter recebido apoio da família. O marido a conheceu como mulher e acreditou que assim era por algum tempo. "Depois, ele começou a desconfiar", disse. "Novamente foi constrangedor contar-lhe, ele sentiu muito, mas manteve o relacionamento porque já existia muito amor".
Mesmo após a cirurgia, Edna continuará a ter problemas com a documentação. "Espero que isso se solucione rapidamente"
disse. Edna afirmou que só consegue trabalhar em empregos informais, pois tem vergonha de apresentar os documentos. Ela reclamou dos constrangimentos que às vezes é obrigada a passar quando precisa apresentar documentos em bancos. "O caixa chama o gerente e logo todos estão sabendo do problema no local", lamentou.


