Transexuais preferem se esconder
SÃO PAULO - Enquanto Roberta Close desfila como estrela do transexualismo, quase todos os transexuais masculinos e femininos do país optaram por se esconder. São obrigados a disfarçar o sexo em saias ou calças largas e não mostram documentos porque seriam detidos ou ridicularizados.
Claudia, 22, vendeu um pequeno apartamento em 1995 para pagar uma cirurgia de mudança de sexo. Ganhou uma vagina no lugar do pênis, mas ainda não conseguiu na Justiça o direito de mudar o nome. Não viaja, não usa documentos e usa cheques de uma tia.
Claudia formou-se dois anos atrás em um curso da área médica, em São Paulo, mas não pegou o diploma porque um nome masculino arrasaria sua carreira. Quero me mudar para o interior com meu namorado, abrir um consultório, casar e adotar um filho.
Maiane, 31, formou-se como auxiliar de enfermagem, mas é barrada nos concursos quando notam seu nome de homem na carteira de identidade. Maiane ainda sonha com uma cirurgia que custa cerca de R$ 10 mil no Brasil e R$ 15 mil lá fora. Mas sem trabalho regular, não há como juntar dinheiro, afirma.
Se aprovado, o projeto de lei do médico e deputado José de Castro Coimbra (PTB-SP) permitirá que os transexuais sejam assistidos nos serviços públicos de saúde e ganhem um nome correspondente a seu sexo. O projeto já foi aprovado nas principais comissões, mas ainda se arrasta na Câmara. O transexual masculino é uma mulher com corpo de homem; tem o sexo masculino, mas a alma feminina, define a pesquisadora e advogada Tereza Rodrigues Vieira, autora do livro Mudança de Sexo (Santos Editora).
Como advogada da causa e de clientes transexuais, Tereza rebate o argumento de que, ao fazer a cirurgia, o médico estaria cometendo crime por suposta ofensa à integridade física de alguém. O dever do médico é oferecer cura ao paciente, e a cirurgia é a única forma de amenizar o problema do transexual, afirma. Tereza também se fundamenta no direito à saúde garantido pela Constituição e no direito à identidade sexual. Este último é um direito que já nasce com a pessoa. Não precisa de lei para garanti-lo.
Estima-se que na Inglaterra sejam feitas 600 cirurgias de mudança de sexo por ano. No Brasil, seriam de 20 a 30, todas clandestinas. Tanto lá fora como aqui, o médico deve exigir um laudo assinado por uma equipe composta por psiquiatra, psicólogo, endocrinologista e um cirurgião plástico. Tereza acrescenta a necessidade de um acompanhamento psicológico de pelo menos um ano, serviço que o Hospital das Clínicas de São Paulo já oferece.
Serviço - Projeto Etcétera e Tal, rua Dronsfield, 359, Lapa, CEP 05074-000, São Paulo, tel. (011) 833-9785; Centro Brasileiro de Transexuais, Caixa Postal 1097, Cuiabá (MT) CEP 78005-970





