Transamazônica continua inviável
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sábado, 24 de agosto de 2002
Edson Luiz<br> Enviado especial da AE 
Novo Repartimento - No dia 27 de agosto de 1972, uma grande solenidade realizada no meio da selva amazônica marcou a história do País. Na manhã daquele dia, o general Emílio Garrastazu Médici, então presidente da República, estava começando a ligação do Brasil do Norte ao Nordeste, inaugurando a Transamazônica. Mas não foi bem assim. Passados 30 anos, a rodovia praticamente continua a mesma. Em alguns trechos, torna-se apenas uma trilha no meio da floresta. Em outros, o tráfego é precário. Quando chove, a lama deixa centenas de pessoas isoladas. E, mesmo no período de seca, a poeira e os buracos tornam a viagem pela estrada um drama sem fim.
A Transamazônica foi traçada partindo de Pernambuco e Paraíba, tornando-se uma única rodovia a partir de Picos (PI). Depois, passaria pelo Maranhão, Tocantins, Pará, Amazonas e chegaria até Boqueirão da Esperança, na fronteira do Acre com o Peru. A intenção era ligar todo o País e chegar aos portos do Oceano Pacífico, totalizando 8.100 quilômetros.
A rodovia pretendia colonizar toda a Amazônia e garantir a soberania nacional. Tudo não passou de um sonho de Médici. Somente um trecho ligando Aguiarnópolis (TO) a Lábrea (AM) foi construído e, mesmo assim, o tráfego é feito somente durante uma época do ano. Hoje, a Transamazônica tem apenas 2.500 quilômetros.
''Quero chegar aos 115 anos para ver esta estrada asfaltada'', sonha Germosina Ferreira de Sá, de 71 anos, moradora da Transamazônica desde que as primeiras máquinas chegaram à floresta derrubando imensas árvores. ''Vim com toda família para tentar a vida aqui. Construí um restaurante e tive muito trabalho. Tinha muito movimento. Hoje, só sofrimento'', diz a maranhense, que se tornou praticamente a dona de Divinópolis, uma pequena vila habitada apenas por seus parentes. São tantos filhos, netos, bisnetos e tataranetos que nem ela sabe contar.
Germosina enche os olhos de lágrimas quando começa a contar as histórias da estrada. ''Desde que começou a construção, só passa carro por aqui durante cinco meses por ano. Tem época que passam dois caminhões por dia.''
Para explicar o drama de quem mora às margens da Transamazônica, ela recorda a morte de um dos genros. ''Ele morreu de manhã e o corpo ficou na cama por quase 36 horas'', lembra. Isso aconteceu, segundo ela, porque outros parentes tiveram de se deslocar até Marabá, a 112 quilômetros de Divinópolis, para buscar um caixão. ''Os carros ficaram atolados e o pessoal teve de trazer o caixão nas costas, andando pelo menos 40 quilômetros'', diz.
Como Germosina, 2 milhões de pessoas deixaram seus Estados para se aventurar na floresta, acreditando na construção da Transamazônica. Muitos voltaram. Os que ficaram transformaram colônias e antigos acampamentos de trabalhadores em cidades.
Em Novo Repartimento (PA), por exemplo, a estrada torna-se uma pequena rua onde estão instaladas as principais lojas. Em Marabá (PA), é a principal ligação entre as partes velha e nova do município. Já em Altamira (PA), a população cresceu de 5 mil para quase 100 mil habitantes.
''Tenho vontade de voltar para o Maranhão, de onde nunca deveria ter saído'', reclama o agricultor José Alves da Costa, de 66 anos, um dos moradores antigos de Itupiranga, cidade que nasceu por causa da rodovia. Todo dia ele percorre a estrada em uma bicicleta, um dos meios de transporte mais comuns na região, assim como as motos. ''A gente passa sem dificuldades pelos atoleiros e buracos. Aqui nessa estrada, o bicho fica feio e chega a ter até cem caminhões parados.''
Pelo menos 130 quilômetros de estrada já receberam asfalto. A completa pavimentação da Transmazônica está no programa Avança Brasil, do governo federal, mas muitos duvidam que isso venha a acontecer. ''Se não fizeram nada em 30 anos, não vai ser agora, no final de governo, que o pessoal vai botar a mão na massa'', diz o motorista de ônibus Raimundo de Oliveira Andrade, um dos muitos profissionais que trafegam pela estrada.


