Quem acompanhou a visita do papa João Paulo 2º ao Brasil, em 80, percebe, claramente, o desgaste físico sofrido pelo pontífice no exercício de sua árdua tarefa de manter unida a Igreja Católica. Karol Josef Wojtyla há 19 anos sentado no trono de São Pedro e conduzindo o maior rebanho de fiéis da terra decidiu se tornar padre em 1942, em plena guerra, ingressando, clandestinamente, no Seminário Maior de Cracóvia. Ordenado em 1946 vai a Roma onde se forma em teologia, com doutorado em ética, pelo Instituto Internacional Angelicun.
Apreciador de literatura, poliglota - é fluente em italiano, inglês, francês, alemão, espanhol, português e latim -, ator, diretor e cenógrafo na juventude, João Paulo começou a subir na hierarquia da Igreja ao ser nomeado bispo auxiliar de Cracóvia, em 1958. Arcebispo em 1964 é consagrado cardeal em 1967.
Esportista na juventude, gostava de montanhismo, praticava esqui na neve e chegou a ser goleiro de uma equipe de futebol no colégio, João Paulo 2º viu sua saúde começar a definhar menos de um ano depois de ter visitado e encantado o Brasil. No dia 13 de maio de 81 o turco Mohamed Ali Agca disparou vários tiros contra o papa, durante uma solenidade na Praça de São Pedro. Um tiro acertou o estômago e outro a mão esquerda. Em junho do mesmo ano, ao ser submetido a uma transfusão de sangue contaminado contraiu um citomegalovírus, em geral, encontrado em aidéticos.
Em 1991 João Paulo 2º visitou novamente o Brasil e já não demonstrava a vitalidade que tanto impressionou os brasileiros 11 anos antes. Os problemas de saúde de Karol Josef Wojtyla pioraram nos anos seguintes. em julho de 92 extraiu um tumor benigno e 15 centímetros do intestino. Em abril de 94 o papa implantou uma prótese no fêmur da perna direita, em razão de uma queda. Meses depois a imprensa divulgou uma declaração do arcebispo de Fortaleza, dom Aloísio Lorcheider, que afirmava que o papa sofria de câncer nos ossos. O Vaticano negou as informações. Em outubro de 96 nova internação. Os médicos extraíram o apêndice de João Paulo 2º e o Vaticano, em nota oficial, negou que ele estivesse com câncer no intestino.
João Paulo 2º toma, ainda, medicamentos contra o mal de Parkinson. Com o mesmo carisma, mas com a saúde visivelmente abalada, ao desembarcar anteontem na base aérea do Galeão, no Rio de Janeiro, o papa evitou o tradicional gesto de beijar o solo. O homem que, segundo dom Lucas Moreira Neves, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), tem uma inteligência rara, vontade de leão e o poder de ‘‘ler por dentro dos homens e da história’’, dá sinais de que está cansado.

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