Tragédia poderia acelerar planos de Chavez na Venezuela
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quarta-feira, 22 de dezembro de 1999
Por Steven Gutkin 
CHARALLAVE, Venezuela, 22 (AE-AP) - O presidente Hugo Chavez contemplou os extensos pastos verdejantes e assegurou: "Podemos construir mil casas ali".
Chavez, que dirige pessoalmente grande parte dos esforços de resgate de uma tragédia que deixou 150 mil danificados, poderia aproveitar a calamidade para cumprir sua proposta de campanha de outorgar aos militares maiores atribuições na sociedade e ao mesmo tempo reinstalar favelados urbanos em áreas desoladas do interior do país.
Ao chegar nesta terça-feira à base militar de Charallave, cerca de 30 km ao sul de Caracas, o presidente, vestido com uniforme de camuflagem e boina vermelha, foi recebido como herói por parte dos 790 danificados que se albergam temporariamente nesta instalação.
Os sobreviventes se aglomeraram ao redor do mandatário, abraçando- o e beijando-o, enquanto gritavam "Chavez! Chavez!".
"Ele está cumprindo sua palavra e ajudando o povo", expressou Edward Gómez, de 37 anos.
Chavez ordenou que sete bases semelhantes a esta sejam transformadas em abrigos enquanto o governo, com a colaboração de doações privadas, começa a construir milhares de casas para os venezuelanos que perderam todos seus pertences na pior tragédia que o país viveu neste século.
O presidente supervisionou um lote de terra, onde empresários privados estão construindo 200 casas para esses sobreviventes.
"Vamos converter este edifício num colégio", garantiu Chavez apontando para uma grande estrutura de tijolos.
O desastre aparentemente colocou o governo em posição de acelerar seus planos de reinstalar centenas de milhares de favelados em zonas menos desenvolvidas como as planícies ocidentais ou em regiões da Amazônia, num programa visando diminuir a superpopulação urbana.
"Esta tragédia está se convertendo numa oportunidade", disse à Associated Press em Charallave o ministro do Planejamento, Jorge Giordani, que acompanhava Chavez.
O chefe de Estado, um ex-comandante pára-quedistas preso por dois anos por tentar dar um golpe militar em 1992, é um herói para milhões de venezuelanos pobres.
Em Charallave, voluntários com violões cantaram uma música para Chavez com o refrão: "o prenderam por eliminar a injustiça".
Um dos pilares de sua plataforma política é colocar os militares do país trabalhando para essas massas empobrecidas. Seu programa "Bolívar 2000" já utiliza cerca de 80 mil soldados na construção de escolas e estradas, e no atendimento aos doentes.
Agora o exército está assumindo um papel ainda maior, com Chavez comandando pessoalmente uma unidade de elite de pára-quedistas, cujos membros desceram por cordas de helicópteros para resgatar milhares de sobreviventes.
O presidente trabalha sem parar nas operações de controle do desastre. Sua esposa, Marisabel, recebe crianças órfãs da tragédia e as abriga temporariamente na residência oficial em Caracas.
Mas outros também têm criticado Chavez por ter colocado, segundo eles, preocupações políticas acima da segurança da população.
Há uma semana, em 15 de dezembro, inclusive quando as chuvas torrenciais castigavam o país e começavam a desprender das montanhas toneladas de lodo e pedras, Chavez exortava os cidadãos a saírem para votar num referendo para aprovar a nova constituição - peça- chave de sua agenda política.
"Em vez de preocupar-se com a votação, ele deveria ter se preocupado com o que iria ocorrer com a gente", disse Roslyn Reyes, uma sobrevivente do devastado bairro costeiro de Caraballeda.
Em algumas paredes de Caraballeda apareceu pintada a frase: "Graças a Chavez, o mundo acabou".
Ainda não estava claro, entretanto, se alguém poderia ter sabido que dias de chuvas incomuns acabariam arrasando a maior parte da costa norte desta nação latino-americana.
A Associated Press obteve uma cópia de um relatório da Defesa Civil, que horas antes dos deslizamentos pedia pela declaração de um "estado de emergência".
"A situação é de tal magnitude que requer-se criar um Comando Executivo de Emergência" para coordenar os esforços para enfrentar as chuvas torrenciais, que até quarta-feira da semana passada já haviam causado a morte de 10 pessoas, afirma o informe.
O documento não recomendava, entretanto, uma evacuação da zona costeira, a mais afetada pela tragédia.


