São Paulo, 06 (AE) - A tragédia do assassinato de três pessoas, em um dos cinemas do MorumbiShopping, reacendeu a discussão sobre os possíveis efeitos nocivos do cinema e da TV. Por um lado, filmes com conteúdo violento são vistos como "estimulantes", até pelo ministro da Justiça José Carlos Dias. Por outro, discute-se se a própria forma como a notícia é divulgada: um ato violento, se transformado em espetáculo, pode incentivar pessoas a cometer crimes semelhantes?
O vice-diretor e professor de Sociologia da Comunicação da ECA/USP, Waldenyr Caldas, acredita que sim, ou ao menos quando o indivíduo tem alguma predisposição à violência. "A pessoa sente-se estimulada porque sonha em aparecer, mesmo que ganhe uma notoriedade negativa", comenta Caldas. "Trata-se de um comportamento patológico e o indivíduo que o manifesta precisa de tratamento psiquiátrico, não de condenação". Para ele, há uma diferença entre informação e exploração de uma notícia. "A forma como esse caso está sendo projetado aumenta o drama e pode servir de incentivo para comportamentos semelhantes".
Quem está do outro lado das câmeras, naturalmente, discorda. Boris Casoy, âncora e editor-chefe do "Jornal da Record", afirma que mostrar tal fato na íntegra é a melhor maneira de evitar uma nova tragédia. "A raiz desse caso é o acesso às drogas e armas e a inoperância das instituições", diz. "Esse tipo de crime ocorre todos os dias, mas dessa vez atingiu o coração da classe média, por isso repercutiu até no Congresso".
O jornalista Paulo Henrique Amorim, que apresenta o programa "Conversa Afiada" na TV Cultura, diz que a mídia não pode ser responsabilizada. "Existe a obrigação de noticiar o caso respeitando os limites do bom senso, sem exploração e sem levar em conta a possível audiência que a notícia possa dar", avalia. "É preciso encarar o episódio como uma patologia social".
O diretor de Núcleo da Rede Globo Alberto Lucchetti, que comanda o "Domingão do Faustão", acredita que atos isolados como esse podem ocorrer com ou sem divulgação da mídia. "Se é mostrado que a pessoa paga pelo crime que cometeu, isso até inibe a violência: um pai pode, por exemplo, ver que o filho tem problemas semelhantes ao do assassino". Lucchetti não acha que a cobertura esteja exagerada ("é do tamanho da indignação das pessoas") e lembra o assassinato da atriz Daniela Perez, em 92. "Quer caso mais divulgado pela mídia que esse?", pergunta. "E nunca houve outra ocorrência". Controle - Ontem, o ministro da Justiça, José Carlos Dias, declarou que o assassinato no shopping serve como "mais um argumento" para que os meios de comunicação passem a limitar a exibição de filmes que usam a violência como "fórmula estimulante". Boris Casoy não concorda que longas-metragens possam motivar crimes. "Já vi muitos filmes de mocinho e bandido e nunca saí matando por aí".
A psicanalista Ana Olmos, especialista em crianças e adolescentes e uma das fundadoras do Grupo TVer (que tem por objetivo discutir a programação televisiva e propor alternativas) acredita que é preciso deixar claro que a TV e o cinema não são responsáveis por patologias. "Mas vale ressaltar que qualquer assunto na mídia vira um show: tudo é feito de maneira sensacionalista e tem de dar ibope", ressalta.
De acordo com estudo do Instituto Nielsen, publicado em julho pela revista norte-americana Kidscreen, até os 18 anos os jovens americanos costumam assistir a 200 mil cenas de violência
sendo 16 mil assassinatos. Para a diretora de Programação Infantil da Cultura, Beatriz Rosemberg, a situação é muito semelhante no Brasil. Segundo uma pesquisa do Ibope e da Retrato Consultoria e Marketing, realizada em 1997, 53% dos pais ou responsáveis não exercem nenhum tipo de controle sobre o que os filhos vêem na televisão.

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