Paris, 14 (AE) - A "catástrofe ecológica" está prestes a virar rotina. Houve uma catástrofe na Ucrânia em 1986, com a explosão da central nuclear de Chernobyl. Houve outra no mesmo ano, com o envenenamento das águas do Reno pelas fábricas da empresa farmacêutica Sandoz. Na França, há dois meses, as costas do Atlântico foram mortas pelo petróleo de um navio naufragado. E assim por diante...
E, agora, um novo desastre massacra a bacia do rio mais belo da Europa, o Danúbio, que nasce na mesma Floresta Negra, na Alemanha, e vai desaguar 3.000 quilômetros mais longe, no Mar Negro, em Odessa, depois de ter fertilizado oito Estados da Europa Central.
Desta vez, o cianureto é o responsável pela morte de milhares de peixes. Tudo começou numa mina de ouro romeno-australiana, situada na Romênia, em Baia Mare, junto a um dos grandes afluentes do Danúbio, o Rio Tisza. Um dos tanques da companhia romeno-australiana sofreu uma rachadura e cem mil litros de efluentes contaminados pelo cianureto seguiram o longo curso do Tisza, sufocando todas as formas de vida à sua passagem. O cianureto entrou na Iugoslávia na quinta-feira à noite. No domingo, chegou ao rio principal, o Danúbio, em Slankamen. A dose de cianureto no Rio Tisza elevou-se muito rapidamente: desde quinta-feira, a concentração de cianureto nas águas era 800 vezes superior ao nível tolerado. Os peixes morreram: 90% dos peixes do Tisza já pereceram. E os estragos começam no Danúbio. Cem toneladas de peixes mortos já foram retiradas do Tisza. Mas os peixes não são a únicas vítimas. O plancton também morre. Toda a cadeia alimentar do rio está morta.
E existe algo pior do que o cianureto: este veneno mortal se dilui muito rapidamente. Mas há também outros metais muito pesados que se depositam nas margens do rio. Os metais afundados na lama se desintegram muito lentamente e, portanto, continuarão por muito tempo sua obra mortífera.
Finalmente, outro perigo irá aparecer mais tarde: as águas do Rio Tisza sempre foram largamente utilizadas para a irrigação e isso acarretará, consequentemente, um desastre para a agricultura.
Como sempre acontece, quando a poluição atinge vários países, um debate muito áspero já foi entabolado. A companhia australiana (que possui 50% da mina de ouro romena) jura que a barreira de contenção não foi danificada e atribui o transbordamento dos tanques às chuvas violentas dos últimos dias.
O outro responsável é a Romênia, pois a mina está em seu território. A Hungria está exigindo que Bucareste pague indenizações pelos estragos e quer processar a Romênia perante o Tribunal Internacional de Haia. A Iugoslávia também está gritando. Ora, duas das nações envolvidas no caso, a Hungria e a Romênia, fazem parte dos Estados que pleiteiam o ingresso na União Européia de Bruxelas e isso é um mau presságio!
Naturalmente, acidentes desse tipo podem flagelar qualquer país, por mais desenvolvido que seja. Contudo, os países que outrora faziam parte do bloco soviético são mais vulneráveis do que os outros. Foi em Chernobyl, na Ucrânia (então parte da URSS), que ocorrreu a única catástrofe nuclear de grande envergadura. Hoje, o complexo de Chernobyl voltou à atividade, embora, como o sabem todos os especialistas, as usinas nucleares soviéticas são medíocres, frágeis e suscetíveis de novas explosões. Na ex-URSS, na região de Murmansk, exitem "cemitérios" de navios nucleares, em estado de deterioração irrecuperável...
Hoje, uma instalação romena ameaça 3.000 quilômetros de águas fluviais (o conjunto Tisza-Danúbio) que sempre aportaram riqueza e fertilidade a oito países da Europa central.
Este é um problema ameaçador para o qual o Direito Internacional dos rios, como o do mar, está longe de apresentar soluções jurídicas. E, se nos lembrarmos que um dos grandes perigos do século que vamos iniciar será a escassês de água, a partilha justa dos rios talvez serão as "guerras da água", o desastre do Tisza-Danúbio soa como uma advertência. Será que a Europa de Bruxelas irá ouvir esta advertência?

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