Tragédia na França é a pior desde 1660 Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 04 (AE) - A França encontra-se transtornada dez dias depois das tempestades, dos tornados e dos dilúvios que a arrasaram no final do ano. São florestas devastadas, telhados levados pelo vento, planícies inundadas, mortes e desolação. Mas se ampliarmos nosso campo de visão, veremos que, no mundo todo, o clima parece descontrolado, "de pernas para o ar": secas extremas no Oriente Médio, El Niño e seus caprichos, dilúvios na Venezuela, inundações no oeste africano, "superciclones" na Índia...
O novo ano, cuja entrada lamentavelmente frustrante não trouxe nem o bug e nem tampouco os quatro cavaleiros do Apocalipse, tratou de nos advertir, isto sim, que o clima será um dos agentes mais perigosos do terceiro milênio. Imprevisível e caprichoso como todas as divas, o clima só faz aquilo que lhe dá na cabeça, e resiste obstinadamente à toda análise.
Que estranha constatação essa, pois numa época em que a ciência abre a escuridão do cosmos e penetra os segredos do corpo humano, o clima não se deixa comandar, muito menos concede em ser interpelado. Segue sendo um enigma intransponível. Isso nos leva a concluir que uma das primeiras tarefas da ciência do terceiro milênio será arrancar dos ventos, das nuvens e dos mares os seus segredos.
Será que os desequilíbrios do mês passado podem ajudar de alguma forma nessa busca? Será que podem dizer se todo aquele descontrole foi causado pelo homem ou pela natureza?
O caso da França é interessante, não somente porque seu clima é muito tranquilo de maneira geral, mas também porque, sendo um país antigo, oferece ao historiador excelentes possibilidades de comparação com os desastres do passado.
O historiador Emmanuel Leroy-Ladurie debruçou-se sobre os escritos dos nossos antepassados. Pois bem, ele recuperou velhos registros sobre geadas fortíssimas, nevascas colossais, chuvas extraordinariamente copiosas, mas garante que desde 1660 (onde começam os dossiês), nenhum desvario celeste jamais sobreveio com tal ferocidade sobre a totalidade do território francês. Talvez uma ou outra província, uma montanha aqui e outra ali ou uma determinada região costeira tenham sido abaladas pela violência climática, mas nunca tal coisa se abateu com tanta ferocidade sobre toda a França, de norte a sul, leste a oeste, como no ano de 1999.
Como foi que nosso historiador chegou a esse resultado? Um dos itens que tomou como base para sua pesquisa foram as florestas. As florestas francesas sempre foram belas e bem cuidadas. Claro que havia um motivo para isso, já que a madeira era um material indispensável para a construção naval (tanto a armação dos navios quanto os mastros requeriam árvores altas, retas e robustas). Portanto, a decisão da França de ter uma marinha comercial e de guerra que rivalizasse com a da Inglaterra, fez das florestas um material estratégico, tanto que elas aparecem descritas minuciosamente nos registros.
Leory-Ladurie consultou os documentos. "Silêncio total". Mesmo a correspondência da época só menciona tempestades locais, nunca se fala de um cataclismo tão brutal e tão generalizado como o de há poucos dias.
Será preciso invocar também o "efeito estufa", nosso conhecido desde 1970, resultante da taxa de ácido carbônico na atmosfera , que aumentou 5% entre 1957 e 1975 e 14% de 1975 a 1990? (o gás carbônico é consequência da combustão do carvão e do petróleo industriais). Pois bem, esses números enlouqueceram. Os pesquisadores de Princeton profetizavam em 1987 que o nível do mar se elevaria cerca de 100 metros perto do ano 2050!
Hoje, esse tipo de previsão nos faz sorrir, ainda mais que nunca há unanimidade entre os pesquisadores. Alguns prevêem uma nova era glacial; outros, um aquecimento repentino!
Mesmo sendo o "efeito estufa" um fato incontestável, ninguém ousa afirmar que ele vá provocar altas de temperatura realmente perigosas.
As estatísticas mostram um aquecimento mais modesto. O mundo, de 1910 até os dias de hoje, ganhou, quando muito, "um grau" de calor a mais. É preciso admitir que o ritmo desse aquecimento não coincide nem um pouco com a rapidez com que vai se acumulando o gás que provoca o efeito estufa.
Começamos a perceber que os componentes constitutivos do clima são de uma complexidade inextricável, até mesmo para o mais possante dos computadores. São inúmeros os elementos que participam de sua formação: os oceanos, a atmosfera, o reino dos seres vivos, animais e vegetais.
Cada um desses elementos desafiam a seu modo as análises e, como se não bastasse, atuam uns sobre os outros, e não há equação que possa prever sua interação.
Portanto, embora já há vinte anos, desde os anos 70, os sábios fossem categóricos em suas acusações à indústria e aos homens, culpando-os pelos inconvenientes do tempo, hoje somos muito mais prudentes. O aquecimento, a selvageria das intempéries, as tempestades e as loucuras do clima se explicam pela ação do homem sobre a natureza ou pela ação dela sobre si mesma? Ninguém pode afirmar nada, e não há dúvida de que ainda vai demorar uns 50 anos antes que possamos afirmar algo com certeza, dizem os entendidos.
Mas será preciso esperar tanto tempo para que aí então se estabeleça um programa que compreenda todas as populações da Terra, inclusive as mais ricas, que são as que mais poluem?





