Quando o sol começa a cair nas pequenas cidades do Estado, vários jovens se reúnem em pontos estratégicos à espera de conduções que os levam para as universidades. As instituições, geralmente concentradas nos municípios polos de cada região, obrigam estudantes a percorrer, em alguns casos, mais de 200 quilômetros por dia, em uma verdadeira romaria em busca do diploma. Sem alternativa, eles têm que enfrentar o medo constante dos acidentes.
O temor aumenta diante de tragédias como a ocorrida na última quarta-feira, em que 18 pessoas morreram após um ônibus de estudantes capotar na Rodovia Mogi-Bertioga, em São Paulo. Entre os mortos estavam três paranaenses: Carolina Benetti, de 21 anos, de Ribeirão Claro (Norte Pioneiro); Janaína Oliveira Pinto, de 20, de Bituruna (Sul); e Ana Carolina da Cruz Veloso, de 21, nascida em Paranaguá (Litoral).
O corpo de Carolina chegou à Ribeirão Claro no início da manhã de ontem e foi sepultado no cemitério municipal, às 11 horas, sob forte comoção de parentes e amigos da estudante de Fisioterapia. A segunda vítima, Janaína, que cursava o último ano de Farmácia, foi velada na Assembleia de Deus Missão, de Bituruna, e sepultada no final da tarde no cemitério municipal. Já Ana Carolina foi sepultada em São Sebastião, cidade do litoral paulista em que vivia desde a infância e onde foi realizada a maioria dos enterros.
Somente nos últimos 12 meses, as polícias rodoviárias Estadual e Federal registraram ao menos seis acidentes graves com ônibus de universitários no Paraná. O mais grave deles vai completar um ano no final deste mês. No dia 30 de junho do ano passado, três pessoas morreram após o coletivo de Florestópolis (Região Metropolitana de Londrina) bater de frente com um Gol na PR-537. Dois ocupantes do carro morreram na hora. A outra vítima foi um estudante. Dos 40 universitários que viajavam para Londrina, 30 ficaram feridos.
O acidente chocou a cidade de 11,2 mil habitantes. A técnica em laboratório Fabiane Ângelo Del Rio, de 23 anos, contou que não estava no veículo no dia do acidente, mas lembrou o trauma sofrido por parentes e amigos. "Foi terrível. Teve gente que se mudou para Londrina para evitar pegar estrada todos os dias. Outros preferem faltar em dias de chuva. O perigo é constante", contou. Fabiane terminou a graduação, mas continua nas viagens diárias para cursar a pós-graduação. "Tem dias de neblina ou chuva forte em que a gente entrega na mão de Deus", comentou.
Prestes a completar um ano, o inquérito ainda segue aberto na Delegacia de Florestópolis. De acordo com o escrivão Márcio Bonache, os últimos dez estudantes devem ser ouvidos nos próximos meses. Segundo ele, as investigações apontam se tratar de uma fatalidade. "Os depoimentos apontam que o ônibus estava em uma velocidade compatível com o trecho e que tentou desviar do veículo, que teria invadido a faixa contrária. Por enquanto, nada aponta para uma possível imprudência ou algo parecido", disse.
O escrivão não comentou sobre o fato de o ônibus de ano 2002, da Secretaria de Saúde de Florestópolis, não estar equipado com cintos de segurança, obrigatório para ônibus fabricados a partir de 1999. "É um assunto que poderá ser objeto de questionamento por parte do Ministério Público, posteriormente", relatou.
À época, vários estudantes preferiram não comentar sobre o assunto para não perderem a única opção de transporte para a faculdade. "É difícil, se a gente reclama eles ficam sem ter como estudar. Por outro lado, é uma agonia grande saber que eles vão estudar sem saber se vão voltar", declarou um pai de universitário que preferiu não se identificar.
Os outros acidentes foram registrados em Ivaté e Iporã (Região Metropolitana de Umuarama), Jacarezinho e Santo Antônio da Platina (Norte Pioneiro) e Campina Grande do Sul (Região Metropolitana de Curitiba). Ao todo, foram cerca de 60 feridos e cinco mortos.

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