Brasília, 24 (AE) - As organizações criminosas que controlam o tráfico de drogas no Rio, e já se expandem por São Paulo, estariam atingindo o status de "máfia" e empregam diretamente, com salários fixos, cerca de 10 mil pessoas - 35% delas são crianças e adolescentes. Essas são algumas conclusões do relatório Avanço do Narcotráfico no Estado do Rio de Janeiro, feito pelo Serviço de Inteligência da Polícia Militar no Estado (PM2). O relatório traz uma descrição de todos os pontos de drogas e o nome dos traficantes que ainda estão soltos.
De acordo com o documento, as organizações criminosas do Rio, a exemplo do Comando Vermelho, estão ganhando o status da Cosa Nostra italiana, da Máfia Chinesa ou do Cartel de Medelin, na Colômbia. A conclusão da PM2 é baseada na própria organização da máfia, que se infiltra nos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário e impõe condutas à população.
Um "organograma estrutural das facções criminosas" mostra que há uma hierarquia bem definida dessas organizações, com "chefões", coordenadores, advogados, líderes, gerentes-gerais, seguranças, gerentes do branco (controlam o tráfico de cocaína), gerentes do preto (controlam a venda de maconha), "vapor" e olheiros.
O relatório mostra que, atualmente, há no Rio 606 redutos do tráfico de drogas, 500 líderes, 500 gerentes, 5 mil seguranças e, pelo menos, 300 advogados que trabalham diretamente para os traficantes. Foi também criada a figura do homem de confiança. É o líder de favela, que substitui o traficante, quando este é preso. O homem de confiança tem salário fixo de R$ 30 mil por mês. O gerente-geral de cada um dos 606 redutos ganha R$ 12 mil mensais e, geralmente, tem noções de contabilidade.
Os seguranças do tráfico recebem R$ 3 mil por mês. São pessoas da própria comunidade, com a função de "rechaçar a invasão de rivais", "impedir que a polícia apreenda grande quantidade de drogas e armas" e, ainda, "garantir a fuga de seus líderes". O relatório mostra que o tráfico paga R$ 50 por dia para crianças e adolescentes atuarem como olheiros, ou seja, "avisar os traficantes de toda a anormalidade" que ocorre na comunidade.
Já os "chefões" do narcotráfico no Rio são pessoas consideradas acima de qualquer suspeita, normalmente empresários e megaempresários, com comércio de fachada, no Brasil e no exterior.
Um dos principais motivos para o avanço do narcotráfico no Rio de Janeiro, segundo a PM2, é a "ausência do poder público" em favelas e áreas pobres da cidade. O relatório aponta, ainda, a alta lucratividade, a lentidão e a ineficácia da legislação penal vigente. O documento mostra que o tráfico no Rio forma o que se pode chamar de "escolas de iniciação criminosa", pois crianças e adolescentes "vêem em seus líderes marginais a possibilidade de ascensão social". E aponta: os advogados têm a função de "pombo-correio" ou "porta de presídio", pois ajudam na troca de mensagens entre os morros e os traficantes presos.
Comando Vermelho - A PM2 concluiu que o Comando Vermelho está sendo subdividido em outras organizações criminosas, causa da maioria dos conflitos armados nos morros do Rio, nos últimos dois anos. Muitos líderes da organização foram presos e os novos comandantes decidiram não mais pagar as chamadas "pensões do pó" - grande soma paga à família do ex-líder preso. Surgiram as organizações Comando Vermelho Jovem (CVJ), Amigos dos Amigos (ADA) e Terceiro Comando (TC).
A Polícia do Rio fez uma extensa lista dos grandes traficantes que ainda estão soltos no Estado. Há no relatório 18 nomes e fotos de grandes traficantes procurados e foragidos. Entre os procurados estão Paulo César Silva dos Santos, o Linho; Carlos José de Souza, também apelidado de Linho; André Napoleão do Nascimento; Ailton Pedro da Silva, o IT; Celso Luís Rodrigues
o Celsinho da Vila Vintém; Eduardo Lopes de Medeiros, o Duda Careca, que controla o tráfico em mais de seis bairros cariocas; Marcelo Xavier da Silva, o Cavalo; e Milton Ferreira da Silva, o Zito.
O relatório esclarece que a grande distribuição de droga no Rio estaria sendo feita por representantes diretos do Cartel de Cáli. Há pelo menos quatro traficantes presos no Rio do cartel colombiano, de onde vem a maior parte da cocaína consumida na cidade. São eles: Salvatori Battaglia, Isaías Pereira Cabral, Henry Pineda e Temístocles Torres.
Homicídios ocorridos no interior dos presídios de segurança máxima do Rio, diz o documento, estão ligados à "corrupção dos agentes" do Departamento do Sistema Penitenciário (Desipe). Há uma "tabela de corrupção", pela qual é cobrada propina para "oferecer favores a presos", que vão da entrega de armas, drogas, telefones celulares, mulheres até o auxílio para o transporte de drogas nos morros e favelas cariocas.
O documento diz que há uma "facilidade" para a "instalação de diversas organizações criminosas internacionais no Rio". E aponta como "solução" para conter o tráfico de drogas no Rio a criação de uma força-tarefa que reúna todos os órgãos públicos de segurança. É necessário responsabilizar criminalmente e "financeiramente" o "poder econômico" dos integrantes destas organizações, conclui a PM2.

mockup