Tráfico formiguinha recorre aos Correios
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domingo, 02 de dezembro de 2001
Renato Lombardi<br>Agência Estado - De São Paulo 
O chamado tráfico formiguinha, no qual a droga é transportada em pequenas quantidades, vem sendo cada vez mais utilizado por criminosos que usam os serviços internacionais dos Correios para distribuir entorpecentes. Este ano, os funcionários do Serviço de Remessas Postais Internacionais, da Receita Federal, que funciona no prédio dos Correios, no Jaguaré, apreenderam 90 quilos de cocaína despachados da capital para o exterior e 2.500 comprimidos de ecstasy mandados da Inglaterra e da Holanda para São Paulo.
O volume de correspondência despachadas é muito maior do que o número de apreensões. As quadrilhas utilizam diversos meios para enganar os responsáveis pela fiscalização. Quase toda semana, os funcionários da Receita Federal, nos Correios, encontram cocaína dentro do forro de carteiras, em material elétrico e em utensílios como ferro de passar, fornos e liquidificadores. Até potes de creme hidratante e produtos de higiene feminina já foram usados para enviar drogas. O quilo da cocaína enviada por meio dos Correios chega a US$ 100 mil.
O ecstasy chega a São Paulo em capas de livros, caixas de disquetes e correspondência pessoal. Segundo o chefe do Serviço de Remessas Postais, Fábio Marchini, a remessa desses comprimidos, provenientes principalmente da Holanda, aumentou muito neste ano. ''Nós fazemos as apreensões e depois passamos o material e os endereços para a Polícia Federal'', declarou Marchini. Segundo ele, seus funcionários contam até com métodos de checagem eletrônica para impedir a ação dos criminosos. A cocaína apreendida tem como destino, em sua maioria, países africanos como Nigéria, Benin, Camarões, Gana, Mali, Moçambique, Angola e África do Sul. Os endereços dos remetentes, escritos por quem despacha as encomendas, não existem. ''Sabemos que dificilmente a polícia consegue identificar os responsáveis pelo envio e também pelo recebimento'', afirmou Marchini.
Em agosto, um livro postado em Londres com 500 comprimidos de ecstasy foi apreendido pela equipe do serviço de remessas. O endereço para a entrega era a caixa postal de um estudante no Campo Belo. Localizado pela PF, o estudante negou ter encomendado a publicação.
O delegado Gilberto Tadeu Cezar, da PF, disse que os responsáveis pelo envio de correspondência com ecstasy ou LSD no exterior usam nomes e caixas postais de pessoas que muitas vezes não sabem o que estão recebendo. ''Por isso, tomamos cuidado para não cometer injustiças.''
Na maioria dos casos, a pessoa indicada na correspondência não existe. O endereço do remetente também não é correto. ''Já mandamos informações para a Interpol investigar em outros países, mas não se consegue prender ou mesmo identificar'', revelou Cezar.
A criatividade dos traficantes que usam o método ''formiguinha'' é grande. Os funcionários do Serviço de Remessas Postais apreenderam no mês passado meio quilo de cocaína no forro de duas carteiras recortadas e coladas pelo traficante. As carteiras postadas na agência dos Correios do Morumbi, em setembro, tinham como destino a República do Benin. O endereço do remetente, na Av. Giovanni Gronchi, é um terreno murado e vazio.
Para mandar correspondência internacional não há necessidade de se identificar. Basta preencher o formulário e pagar a taxa. Diante do aumento do tráfico, os Correios buscam um meio de identificar o remetente e impedir a ação dos traficantes.


