Tráfico está normal no Acre apesar de CPI
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sábado, 27 de novembro de 1999
por Flávio Mello, enviado especial 
Rio Branco, 27 (AE) - Durante as investigações da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico e as prisões em série de pessoas acusadas de serem ligadas ao grupo de extermínio e ao narcotráfico, as remessas de entorpecentes para abastecer o mercado local praticamente cessaram e o preço da droga dobrou. As investigações ainda estão longe de terminar, mas segundo um traficante que concordou em falar com a condição de que a sua identidade fosse mantida em absoluto sigilo, o mercado já voltou ao normal.
A escassez durou cerca de 30 dias e o preço da "cabecinha", uma pequena quantidade de pasta suficiente para misturar em não mais do que dois cigarros, aumentou. Nesse curto período de tempo o preço de mercado, que varia em torno de de R$ 5,00, dobrou.
"Quem tinha estoque, aproveitou", contou Júnior - nome fictício com o qual o traficante identificou-se. Além do efeito CPI, a oferta da pasta, conhecida como "mela", diminuiu por causa do aumento das barreiras nas rodovias e do aumento de agentes da Polícia Federal (PF) na cidade. "Ninguém era louco de ir buscar, então quem tinha ganhou bastante", explicou Júnior.
Os métodos de transporte da droga são os mais variados possíveis. Os carregamentos são trazidos pelos rios, pelas estradas, em aviões, por passageiros de ônibus normais, carros particulares e, até mesmo, pelo meio de transporte mais convencional: a pé, pelo meio da floresta. "Tem nego que passa dias na floresta carregando muamba na mochila, mas os pneus sem câmara facilitaram muito as operações", contou Júnior. "Basta encaixar direito, inflar novamente e ninguém desconfia de nada." Júnior é casado, aparentemente vive do que ganha numa barraca de madeira fixa numa região bem próxima ao centro da capital. Mora em casa humilde e evita, ao máximo, ostentar sinais de enriquecimento.
Comanda a sua boca-de-fumo, o nome popular do ponto de venda varejista da pasta base de cocaína, do mesmo local no qual vende quitutes regionais, refrigerantes e cervejas - não muito distante da sede da Justiça Federal e do Comando da Polícia Militar (PM). O movimento de pessoas de todas as idades que passam pelo local é impressionante. A exposição, explica, está sendo inevitável porque perdeu o seu homem de confiança. "Normalmente não apareço, mas perdi o meu homem de confiança, que é difícil de substituir."
Júnior não acredita que a apuração do esquema de tráfico
que começou pelo Acre e descobriu outras associações semelhantes no Maranhão e em São Paulo, chegue ao fim. "Se estão assustados com o que descobriram, não sabem realmente do que se trata; isso é tão grande, que falta pouco para começar a morrer gente de novo e não vai demorar muito, não", acredita.
O superintendente da Polícia Federal (PF) no Acre, Glorivan Bernardes, reconheceu que o efetivo é insuficiente para fiscalizar a fronteira do Estado. São 36 agentes federais para tomar conta de aproximadamente 2.500 quilômetros de fronteiras. "Nós nos enganamos e agimos como se fosse possível dar conta disso, mas é humanamente impossível", admitiu Bernardes. Um concurso abrirá 1.300 vagas, mas os novos agentes só começam em 2001.
Ele lembrou que as informações sobre o tráfico de droga local foram um pouco exageradas. Bernardes referiu-se às notícias que quantificaram em 11 mil as bocas-de-fumo na capital. "Primeiro que não existe nenhum órgão que faça essa radiografia, portanto isso não existe e, se fosse verdade, os traficantes estariam vendendo uns para os outros."
Resultados - Apesar do efetivo reduzido, a PF tem comemorado os resultados obtidos no último ano. De acordo com Bernardes, a PF já apreendeu 300 quilos de pasta base de cocaína somente neste ano. Em relação aos 30 quilos apreendidos em 1998, o aumento já atingiu 1.000%. O mercado de entorpecentes pode estar voltando ao normal, mas os Ministérios Públicos Federal e Estadual continuam apurando as denúncias referentes ao narcotráfico.
Desde que as denúncias começaram a ser investigadas, mais de 30 pessoas já foram presas. O processo iniciado a partir da denúncia do Ministério Público Federal, que tem 68 laudas, propõe a condenação de 55 pessoas - 28 estão presas em Brasília.
Detentos - Um dos 28 detentos é o ex-deputado federal Hildebrando Pascoal, que além de ser acusado de tráfico de entorpecentes responde a vários processos criminais na Justiça Estadual e um por crime eleitoral. O grupo de extermínio, que supostamente seria liderado por Hildebrando, teria arquitetado mais um crime e acabou envolvendo diretamente a família do ex-governador Romildo Magalhães.
O filho de Magalhães, Shelton, de 26 anos, é acusado de participar e executar o assaltante Hélio Pinguim. Ele matou o filho mais novo de Magalhães, Romildo Magalhães Filho, depois de assaltar o Haras Cinco Irmãos - propriedade da família - em 1995. Magalhães nega a acusação à sua família, mas o Ministério Público Estadual argumenta que, de seis depoimentos, quatro indicam Shelton como o autor da execução. Os promotores ofereceram benefícios legais, caso o acusado confesse o crime e colabore com a investigação.
Além da redução de dois terços da pena, Shelton pode ter a garantia de responder ao processo em liberdade. O depoimento foi remarcado para as 9h de amanhã.
Suspeitos - O Ministério Público Estadual e a PF também estão investigando a suposta ligação de um outro político importante do Acre com esquemas de lavagem de dinheiro. Há suspeita sobre as atividades da família do também ex-governador Orleir Cameli. "Não há nenhuma ligação direta ainda, portanto esse trabalho ainda vai demandar mais tempo", informou um procurador federal do Acre, que pediu para não ter seu nome revelado.


