Tráfico decreta toque de recolher e aterroriza favela em SP
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sexta-feira, 22 de outubro de 1999
Por Anna Cecília Junqueira 
São Paulo, 23 (AE) - Crianças brincavam nas ruas, mães lavavam calçadas e pais bebiam nos bares, durante o dia de hoje nas ruas estreitas da Favela de Heliópolis, na zona sul paulistana. Tudo parecia tranquilo, não fosse por um fator: o medo de morrer. Há uma semana, os moradores da favela estão sendo ameaçados de morte se permanecerem nas ruas após as 21 horas. A ameaça é feita em ligações anônimas para cinco escolas estaduais.
Com isso, a rotina de Heliópolis mudou: cultos evangélicos começam às 18 horas, e não às 20 horas, os bares, que antes ficavam abertos até o sol nascer, fecham cedo, e as crianças e jovens, que ficavam na rua até a madrugada, são obrigados a dormir cedo. "Na rua ninguém comenta, mas tá todo mundo com medo de morrer", contou uma das crianças, de 12 anos. "Voltamos para casa correndo de medo." Temendo represálias, os moradores não quiseram se identificar.
Ontem (22), a Polícia Militar fez uma "operação especial" para evitar o toque de recolher. Mas foi embora às 22h30. "As coisas piores acontecem de madrugada", disse um comerciante. Segundo os moradores, na noite de ontem, cinco pessoas morreram.
"Os policias não entram onde o tráfico de drogas rola. Ficam rondando só por fora. Eles têm medo", explica uma moradora de 37 anos, que não pode mais ir à aula à noite. "Prefiro repetir por falta do que morrer. Depois das 21 horas, eles (traficantes) cercam as ruas. É perigoso."
"Quando não tem polícia, fico com medo dos perigosos que circulam com armas deste tamanho", disse outro morador, de 38 anos, abrindo os braços para explicar. "Após as 21 horas, a rua vira um deserto. Só ouvimos as pipocas (tiros)." Além do medo, os comerciantes também estão sendo prejudicados. "Estou vendendo 50% menos", contou o dono de um bar, que funcionava a noite toda. E mudar para outro lugar é impossível. "Se mudarmos daqui agora, podemos morrer."


