Para sustentar o vício e fazer dinheiro, o usuário pega em consignação umas tantas trouxas de maconha com o traficante, vende tudo e na hora do acerto manda menos dinheiro do que deveria. Mais adiante, outro traficante espicha o olho para a boca alheia. É o que basta para os tiros começarem. A descrição que poderia ter sido retirada de uma favela carioca cabe perfeitamente a Londrina. Segundo a Polícia Civil, 80% de todos os homicídios registrados na cidade têm alguma relação com o tráfico de entorpecentes. Neste ano, 159 pessoas foram assassinadas no município.
''Não tem jeito, cara que deve para o traficante acaba morrendo'', diz o delegado da Força-tarefa de Homicídios, Joaquim Melo. Nem todas as vítimas devem alguma coisa. Caso de Tiago Soares Alves, 23 anos, morto no último dia 8 na Rua São Salvador (Área Central). Segundo o delegado, o alvo dos tiros era Jean Carlos Gonçalves Alves, 15 anos, assassinado na mesma investida.
A mesma suspeita ocorre no caso do triplo homicídio registrado na Avenida Saul Elkind (Zona Norte) no início do mês. As investigações apontam que apenas uma das três vítimas era visada. Segundo Melo, os crimes envolvendo o tráfico têm o agravante de serem cercados pela lei do silêncio. ''Recebemos muitas denúncias anônimas, mas as testemunhas não depõe oficialmente, têm medo'', explica.
Com a escalada de crimes de novembro 20 vítimas até agora, um triplo homicídio e três duplos a chefia da Polícia Civil resolveu implantar uma segunda equipe de homicídios. Já na raiz do problema existe apenas uma (Delegacia Antitóxicos) e o titular também se divide entre a função e a Delegacia do Adolescente.
O delegado-chefe da 10 Subdivisão Policial, Jurandir Gonçalves André, considera que o número de homens é suficiente. Ele argumenta que o combate ao narcotráfico é auxiliado por outras corporações. ''Nós temos uma delegacia especializada no combate, a equipe está constantemente realizando prisões, não só a Polícia Civil mas também a Polícia Federal e a própria Polícia Militar'', afirma.
Tanto a Polícia Civil como a Polícia Federal (PF) não forneceram números sobre prisões e apreensões de tóxicos. Relatório preliminar da Polícia Militar (PM), de outubro, aponta aumento considerável do fluxo de drogas na cidade. A dois meses do final do ano, o número de prisões em flagrante da PM contabiliza aumento de 8% em relação ao ano passado. Nas apreensões, o crescimento beira os 20%.
O comandante interino do 5º Batalhão de Polícia Militar (BPM), capitão Altivir Cieslak, prefere creditar o aumento às novas estratégias de ação do que a um aumento do volume de drogas na cidade. ''O disque-denúncia e novas ações e operações policiais agilizaram o serviço'', afirma. Entre as ações, ele cita o uso de um cão farejador no Terminal Rodoviário de Londrina (TRL). Só esse expediente levou à apreensão de mais de 200 quilos de tóxicos neste ano.
Exatamente essa quantidade de drogas foi apreendida pela Promotoria de Investigações Criminais (PIC) no mês passado, em uma operação no Jardim Nossa Senhora da Paz (Zona Oeste). Foi a maior apreensão na área urbana da cidade e uma das poucas. Boa parte dos presos em flagrante é detida com pequenas quantidades de droga.
Para o delegado-chefe da PF, Sandro Roberto Viana, a dinâmica do tráfico local explicaria esse quadro. ''Não existem grandes organizações na cidade e sim pequenas 'bocas'; se existisse um comando único não teriam tantas mortes causadas por brigas de território'', afirma.

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